Opinião

A bondade que salva vidas

A segunda temporada de "After Life" não podia surgir num tempo mais adequado. Ricky Gervais transforma a dor num eterno sentimento de bondade.

Ricky Gervais com David Bradley numa cena de "After Life"
Ricky Gervais com David Bradley numa cena de "After Life"
Ray Burmiston

Talvez seja este o sítio certo para Ricky Gervais, presumindo que todos temos um. A genialidade de "After Life" (disponível na plataforma de streaming "Netflix") explicará porque foi o ator e humorista britânico várias vezes chamado para apresentar a cerimónia dos Globos de Ouro mesmo se, como aconteceu na edição deste ano, a experiência terminou debaixo de muitas críticas. Gervais é sincero, mesmo quando isso implica alguma crueldade. Ninguém gosta de ouvir toda a verdade, todas as vezes. Ninguém, será um exagero... talvez poucos suportem ouvi-la em público, sobretudo, se são alvo dela.

A segunda temporada de After Life tem seis episódios, os mesmos da temporada de estreia. Nota-se, nela, uma certa alteração de comportamentos da personagem principal, Tony, interpretada por Ricky Gervais. Sem ser spoiler, avanço que Tony perdeu a mulher - Lisa - na sequência de um cancro. Jornalista, trabalha no jornal local de uma vila inglesa. O diretor é o tímido e ingénuo cunhado de Tony e cada um dos colegas de redação parece uma pessoa que não existe, realmente, mas que tem qualquer coisa de tantos que conhecemos.

Tony tem o pai (David Bradley) numa casa de repouso, velho e com alzheimer. Ali conhece a mulher que cuida do pai e que, tantas vezes, acaba por cuidar do filho. A personagem principal também faz amizade com uma mulher (Penelope Wilton) que, como Tony, vai frequentemente ao cemitério prestar homenagem a um ente querido: no caso dela, o marido. E há um carteiro que já foi sem-abrigo e uma prostituta, aliás, "profissional do sexo", que se torna presença assídua na casa do protagonista.

"After Life" é para rir e para chorar. Uma espécie de arco-íris de emoções que fluem a cada episódio de cerca de 30 minutos. Nesse curto espaço de tempo é possível dar umas gargalhadas, para logo a seguir deixar as lágrimas correr cara abaixo. É, acima de tudo, uma forma de ver a vida como a imaginamos, mas aceitá-la como ela é.

Num tempo como o que vivemos, que parece ele próprio de série televisiva, surge a bondade como uma das poucas formas de resistir, de dar a volta. Claro que não resolverá questões profundas, estruturais, de quem não terá - ou já não tem - forma de sustentar-se, um singelo apoio.

Mas é aqui que entra a generosidade e essa tão simples forma de partilhar a que os ingleses chamam kindness e para a qual nós, felizmente, temos uma tradução adequada. Como em "After Life", não há agora abraços, de facto. Tony não os recebe porque não quer e porque diz não saber lidar com a bondade dos outros, em relação a ele. Mas Tony bem sabe que a expressão corporal, o olhar, o sorriso... são abraços dados de outra forma, que não exigem o toque mas que têm um efeito semelhante. Agora - que não podemos abraçar - como antes, a bondade expressada nos gestos, nas palavras, nas nossas ações serão importantes. E, sem dúvida, nalguns casos, como em "After Life", a bondade pode salvar um vida. Pode ser a nossa ou pode ser outra, mesmo que nunca saibamos que o fizemos.