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Literatura: A pergunta "Onde acaba a viagem e começa a memória?" ficou por responder

Ana Marques Gonçalves

Matosinhos, 18 abr (Lusa) -- O festival literário LEV-Literatura em Viagem lançou o reto, os escritores convidados tentaram responder, mas nenhum conseguiu definir a ténue linha que distingue "onde começa a memória e acaba a viagem".

Matosinhos, 18 abr (Lusa) -- O festival literário LEV-Literatura em Viagem lançou o reto, os escritores convidados tentaram responder, mas nenhum conseguiu definir a ténue linha que distingue "onde começa a memória e acaba a viagem".

Ao terceiro dia de LEV, a pergunta "Onde começa a memória e acaba a viagem?" adaptou-se ao tema da quinta mesa, onde estava Karla Suarez, para quem é mais fácil escrever factos ficcionados do que memórias pessoais.

"Na minha obra 'La Havana', tive de fazer uma viagem na memória real da minha vida", recordou a escritora cubana, confessando a grande dificuldade que teve em descrever a sua vivência na capital de Cuba e as pessoas com rosto.

A Havana de Karla Suarez foi o destino dos seus regressos, a sua casa, a sua família, os amigos, os escritores, "a cidade aberta ao turismo", que ninguém podia roubar à sua geração.

"A Havana era poder continuar a sonhar", leu a autora, perdida nas memórias da sua infância e juventude, antes de ter partido para a Europa.

A viagem pela memória continuou com Luís Amorim de Sousa, que relembrou a sua passagem por Londres, onde trabalhou na BBC.

"A minha geração não é uma geração portuguesa, é uma geração inglesa. Uma identidade é inegociável e o meu país é Portugal, nunca perdi essa noção, mas, por outro lado, somos bastante influenciados pela cidadania, e essa noção foi-me dada em Londres", assumiu o autor de "Oceanografia".

Luís Amorim de Sousa deu por si a escrever livros de memórias, com 60 anos, porque "a memória é como um filme", que se divide entre o momento em que se "realiza" e o momento posterior em que se observa, não havendo separação entre viagem e memória.

Já Ricardo Adolfo sabe exatamente onde começa uma e acaba a outra: na cama.

"Todas as viagens acabam no mesmo sítio: na cama. Onde é que vamos dormir é sempre muito importante, por isso a cama será esse fim das nossas viagens", defendeu.

Para o escritor angolano, "a cama não é só um fim", pois se a viagem acaba na cama, algo tem de começar nesse momento.

"É aí é que a memória é chamada à pedra. Há uma série de perguntas que surgem quando acordamos e que é a memória que vai responder", resumiu, ressalvando, contudo, que "a memória é sempre ficcional".

O festival literário LEV-Literatura em Viagem arrancou no sábado e termina esta terça-feira, em Matosinhos.

AYG

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