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Porto/S. João: Santo, santo, mas não padroeiro (C/ÁUDIO)

Fernando Zamith

Porto, 18 jun (Lusa) -- A cidade do Porto está intimamente ligada à figura de S. João, mas o santo (ou melhor, um dos santos João) não é o padroeiro da cidade, distinção atribuída há nove séculos a Nossa Senhora da Vandoma.

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Porto, 18 jun (Lusa) -- A cidade do Porto está intimamente ligada à figura de S. João, mas o santo (ou melhor, um dos santos João) não é o padroeiro da cidade, distinção atribuída há nove séculos a Nossa Senhora da Vandoma.

"Desde o início da nacionalidade e desde o início da cidade enquanto couto do Porto e enquanto burgo, a padroeira é Nossa Senhora. Aliás, nos mais antigos brasões da cidade aparece 'civitas virginis', cidade da virgem", disse à agência Lusa o historiador Hélder Pacheco.

Nossa Senhora não foi, contudo, a única padroeira do Porto. Num curto período foi São Vicente e entre os séculos 16 e 19 o título foi dado a S. Pantaleão.

"A população atribuiu o facto de a cidade ter sido salva da peste à presença da relíquia de S. Pantaleão", referiu Hélder Pacheco, explicando que a relíquia foi levada para o Porto pelos arménios fugidos de Constantinopla.

O historiador realçou que "o S. João nunca assumiu a função de padroeiro por uma razão muito simples: é que a festa de S. João é uma festa pagã mascarada".

Hélder Pacheco considerou "uma questão pacífica" o facto de 24 de junho ser o feriado municipal do Porto, precisamente por a festa de S. João não ser religiosa.

"A Igreja Católica, de uma forma muito hábil e sensível, colocou a celebração de S. João, o Baptista, no dia do nascimento, e não da morte, porque é o dia mais próximo do solstício", realçou, notando que a Igreja habitualmente celebra a data da morte dos santos e não do nascimento.

É que há ainda hoje alguma controvérsia entre os historiadores sobre que S. João é celebrado nas festas do Porto: S. João Baptista, o que batizou Jesus Cristo, ou S. João de Terzónio, um eremita que viveu no século nove em Tui, onde era conhecido por S. João do Porto, em alusão à cidade onde nasceu.

Alguns historiadores admitem mesmo que o S. João do Porto seja a "fusão" dos dois santos: o Baptista, que nasceu em 24 de junho, e o eremita, que morreu também em 24 de junho.

Como Hélder Pacheco explica no seu "Porto. O Livro do S. João", de 2004, está descartada a hipótese de o santo da cidade ser um outro João, o evangelista que foi apóstolo de Jesus.

"Não deixa de ser significativo (e fascinante) atender ao facto de os santos Joões -- o Evangelista e o Baptista -- serem consagrados por alturas dos solstícios de inverno e de verão", salienta o historiador.

Independentemente de que santo seja, Hélder Pacheco sublinhou que S. João "nunca teve na cidade o prestígio de Nossa Senhora, ou até do S. Pantaleão".

"Não é nada de espantar que o S. João nunca tenha sido o padroeiro, porque de facto ele nunca foi assumido nessa função. Ele foi assumido na função de seu uma espécie de manto protetor de uma celebração pagã", afirmou.

Sinal da posição sempre algo ambígua da Igreja Católica perante uma festa popular com raízes pagãs, de celebração do sol e da chegada do verão, a Diocese do Porto renovou o seu site (www.diocese-porto.pt) no início de junho com imagens alusivas à festa de S. João.

O fundo do site é agora o céu estrelado e com lua cheia da noite de S. João, com a figura do santo, os alhos porros e os balões ao lado da inscrição "100 anos em festa... São João do Porto", numa alusão ao centenário do referendo.





FZ.

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