Cultura

Ainda há estrelas de cinema?

Crítica de Cinema

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Tom Cruise? Nicole Kidman? Os nomes dos actores perderam força na promoção de muitos filmes. No mundo dos super-heróis, em particular, a banda desenhada e os efeitos especiais são os factores dominantes das grandes campanhas.

Há poucos dias dias, quando se assinalou o 20º aniversário da morte de Stanley Kubrick (a 7 de Março de 1999, contava 70 anos), não pudemos deixar de lembrar o seu derradeiro filme, o genial “De Olhos Bem Fechados” (1999), e a excelência do seu elenco. Que é como quem diz: os nomes de Tom Cruise e Nicole Kidman eram um trunfo decisivo de promoção, a par, claro, da aura mítica do próprio Kubrick.

Vale a perguntar se ainda há estrelas de cinema dessa dimensão. Não se trata, entenda-se, de discutir as “melhores” ou “piores” qualidades de cada actor ou actriz. Trata-se, isso sim, de perguntar se nomes da natureza dos citados ainda possuem o mesmo apelo cinéfilo de outros tempos (a começar, ironicamente ou não, pelos casos concretos de Cruise e Kidman).

Importa avançar com a resposta mais prudente: cada caso é um caso. Qualquer generalização corre o risco de simplificar a pluralidade dos filmes, desde a sua produção até às respectivas formas de consumo (das salas escuras às plataformas de “streaming”).

Observe-se apenas um exemplo: o de “Capitão Marvel”. E nem sequer estou a falar do facto de muitas notícias tratarem a sua performance comercial, à beira dos 800 milhões de dólares de receitas, omitindo os seus custos (cerca de 170 milhões) e também o facto de, neste tipo de filmes, os gastos a promoção global serem quase

sempre da mesma ordem do orçamento de produção. De facto, a economia dos filmes é cheia de nuances. Veja-se o caso do vencedor dos Óscares, “Green Book”: até agora rendeu “apenas” 275 milhões... mas custou 23!

No caso da promoção de “Capitão Marvel”, o elenco possui um valor secundário e, em particular, a sua intérprete principal, Brie Larson. É bem certo que, no meio da confusão dos efeitos especiais, ela pouco tem para fazer... Seja como for, estamos a falar de uma das mais talentosas actrizes de Hollywood, “oscarizada” em 2016 pela sua admirável composição no filme “Quarto”, de Lenny Abrahamson.

Há, assim, sectores imensos da actual produção cinematográfica, a começar pelos super-heróis da Marvel, cuja imagem promocional já não passa pelos actores, quer dizer, pelo factor humano. Tal imagem envolve ligações com um sector particular da banda desenhada e uma celebração mais ou menos infantil dos chamados efeitos especiais... É pouco para conhecermos e compreendermos a diversidade dos filmes que temos à nossa disposição.