Cultura

A pré-história de David Fincher

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Uma imagem emblemática de Madonna leva-nos a reencontrar o nome de David Fincher. Ou seja: o cineasta de títulos marcantes como “Seven” ou “A Rede Social” é também um brilhante realizador de telediscos.

Esta imagem de Madonna é, por certo, uma das mais emblemáticas da sua carreira. Mesmo quem possa não conhecer o seu contexto, nela reconhece, justamente, a energia própria de uma “imagem de marca”. Para utilizarmos uma expressão do mundo global do “entertainment”, diremos que é uma imagem que consagra o poder simbólico de uma estrela — “star power”.

Foi registada há 30 anos. E vale a pena sublinhar a efeméride. De quê? Do álbum de onde emana. De facto, tudo começa na música: trata-se de um grande plano do teledisco de “Express Yourself”, uma das canções mais célebres de “Like a Prayer”, quarto registo de longa duração na discografia de Madonna, lançado em Março de 1989.

Acontece que a efeméride, sendo musical (“Like a Prayer” constitui um objecto incontornável na história da pop), é também eminentemente cinéfila. Desde logo porque a iconografia do teledisco, encenando uma saga romântica numa cidade assombrada por um poder ditatorial, nasce de uma espectacular variação sobre o visual de “Metropolis” (1927), de Fritz Lang, clássico absoluto do expressionismo alemão. Mas também porque o teledisco foi realizado por aquele que viria a impor-se

como um dos maiores cineastas contemporâneos. A saber: David Fincher.

Dir-se-ia que “Express Yourself” pertence à pré-história de Fincher. Isto porque, na altura com 27 anos, Fincher ainda não era um realizador de filmes. Para além da criação de uma série de spots publicitários (Nike, Sony, Chanel, etc.), tinha-se distinguido, precisamente, no domínio dos telediscos. Entre as suas proezas, incluiam-se “Englishman in New York” (Sting, 1988), “Straight Up” (Paula Abdul) e “Janie’s Got a Gun” (Aerosmith, 1989). Isto sem esquecer que o teledisco de “Oh Father”, outro single de “Like a Prayer”, teria também a sua assinatura.

Só em 1992 Fincher viria a dirigir a sua primeira longa-metragem, “Alien 3”. Como se costuma dizer, o resto pertence à história, já que a sua filmografia integra títulos tão singulares e fascinantes como “Seven” (1995), “Clube de Combate” (1999), “Zodiac” (2007), “O Estranho Caso de Benjamin Button” (2008) ou “A Rede Social” (2010). Entre os seus trabalhos mais recentes inclui-se o filme “Em Parte Incerta” (2014) e a produção executiva da série “House of Cards” (2013-18), tendo realizado os dois primeiros episódios da temporada inaugural.

Fincher é, afinal, um prodígio de invenção e versatilidade, adaptando-se com invulgar subtileza às mais diversas narrativas — veja-se ou reveja-se o caso exemplar de “Em Parte Incerta”, um típico “thriller” que se vai transfigurando num perturbante ensaio sobre a verdade e a mentira nas relações humanas.

Notícias mais recentes? Fincher foi dado como certo na realização de uma sequela de “World War Z: Guerra Mundial” (2013), saga apocalíptica, protagonizada por Brad Pitt, sobre uma invasão de zombies. Há poucas semanas, o estúdio produtor (Paramount) colocou o projecto em espera, alegadamente por problemas orçamentais...

  • E Se Fosse Consigo? A pobreza e a exclusão social
    34:51