Cultura

Seymour Cassel ou a arte de ser secundário

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Falecido aos 84 anos de idade, Seymour Cassel foi um caso exemplar de versatilidade, mesmo que nunca tenha tido o estatuto de estrela. A sua imagem no cinema americano fica, em particular, ligada ao universo de John Cassavetes

Poderíamos começar por lembrar o seu espectacular bigode em “Tempo de Amar” (1971), de John Cassavetes. Mas conhecemo-lo de muitas dezenas de títulos do cinema americano, ao longo de uma carreira iniciada na produção independente da década de 60: Seymour Cassel faleceu em Los Angeles, no dia 7 de Abril, contava 84 anos.

É um daqueles rostos que, por vezes, até podemos sentir alguma dificuldade em identificar pelo nome. O certo é que, com ou sem bigode, o reconhecemos como uma presença familiar. Há uma razão muito forte para que tal aconteça: Cassel é um símbolo exemplar da grande tradição dos actores secundários americanos (de Hollywood ou das suas margens).

A ligação de amizade com Cassavetes, por vezes envolvendo também laços de produção, seria um factor decisivo na sua afirmação como actor. Basta lembrar que a sua única nomeação para um Óscar (secundário, precisamente) ocorreu com “Rostos” (1968), porventura o filme de Cassavetes que mais e melhor define a sua dramaturgia intimista, sustentada por um olhar que quase se confunde com uma “reportagem” sobre os próprios actores.

Sob a direcção de Cassavetes, e para além do já citado “Tempo de Amar”, surgiu ainda em “A Morte de um Apostador Chinês” (1976), “Noite de Estreia” (1977) e “Amantes” (1984). Entre os seus títulos mais importantes,

incluem-se também, por exemplo, “A Pele de um Malandro” (1968), de Don Siegel, “O Grande Magnate” (1976), de Elia Kazan, “O Comboio dos Duros” (1978), de Sam Peckinpah, “Los Angeles a Ferro e Fogo” (1988), de Dennis Hopper, ou “Dick Tracy” (1990), de Warren Beatty.

As suas qualidades de interpretação envolviam essa capacidade de expor a singularidade de uma personagem, mesmo quando desfrutava de um muito breve tempo de ecrã. É uma arte discreta do detalhe e da versatilidade, tanto mais difícil quanto, não poucas vezes, acontece em contraponto com uma estrela. Cassel nunca foi uma estrela, condição que, bem entendido, não o impede de ter um lugar muito especial na nossa memória cinéfila.