João Lopes

Cultura

João Lopes

Crítico de Cinema

Cultura

"Os 400 Golpes" ou 60 anos de Nova Vaga

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Jean-Pierre Léaud foi o rosto central de “Os 400 Golpes”, primeira longa-metragem de François Truffaut — estava-se em 1959 e a Nova Vaga francesa impunha-se como modelo de transformação para as mais diversas cinematografias.

Com ou sem grades, quando olhamos o rosto de Jean-Pierre Léaud em “Os 400 Golpes”, de François Truffaut, não podemos deixar de sentir um paradoxo tocante: por um lado, há nele a vulnerabilidade de uma juventude desamparada (Léaud tinha 14 anos durante a rodagem); por outro lado, pressentimos a amargura profunda de quem parece já ter vivido várias existências.

Imagem forte, distante e próxima. Estão a completar-se 60 anos sobre a revelação desse filme que, depois de “O Acossado”, de Jean-Luc Godard (lançado em França cerca de um mês antes) serviu de bandeira da Nova Vaga francesa. A sua estreia mundial ocorreu a 30 de Abril de 1959, na abertura oficial do 12º Festival de Cannes, vindo a valer o prémio de realização a Truffaut (“Orfeu Negro”, de Marcel Camus, arrebatou a Palma de Ouro).

Numa altura em que muitos discursos de exaltação da juventude nem sempre prestam a devida atenção às suas formas de representação audiovisual, vale a pena lembrar o mais evidente (que é também, tantas vezes, o mais esquecido). Assim, é verdade que os autores da Nova Vaga foram verdadeiros experimentadores, concretizando nos seus filmes muitas e arrojadas ideias narrativas. Mas não é menos verdade que tal atitude nunca correspondeu a um qualquer formalismo abstracto, desligado da realidade circundante.

Truffaut expunha, afinal, os dramas íntimos de uma juventude marcada por muitas formas de solidão e, em paralelo, um entendimento escolar e social dessa juventude a necessitar de uma metódica reavaliação dos seus princípios. O já citado filme de Godard, porventura o emblema mais universal da Nova Vaga, inspirava-se no clássico género “noir” de Hollywood para nos fazer sentir as euforias e impasses da nova vida urbana. Enfim, e para apenas citarmos mais um título 1959, foi nesse mesmo ano que Alain Resnais encenou um capítulo fulcral das memórias traumáticas da guerra em “Hiroshima, Meu Amor”.

São memórias que não têm nada de nostálgico. A peculiar energia emocional, e também a inteligência narrativa, dos filmes citados confere-lhes uma actualidade estética e simbólica que está para além de qualquer pitoresco. Isto sem esquecer que, pela mesma altura, nas mais diversas geografias, iam começar a emergir muitas variantes do “cinema novo”. Por exemplo, num país chamado Portugal através de cineastas como José Ernesto de Sousa (“Dom Roberto”, 1962), Paulo Rocha (“Os Verdes Anos”, 1963) ou Fernando Lopes (“Belarmino”, 1964).