Cultura

Tarantino em todos os ecrãs

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Recentemente, Quentin Tarantino relançou o seu filme “Os Oito Odiados” em formato de mini-série. Na prática, isto significa que a coexistência entre o grande ecrã e os (muitos) pequenos ecrãs está a alterar a dimensão estética e a vida comercial do cinema.

Há pouco mais de três anos, quando descobrimos “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino, pudemos celebrar, não apenas o retorno do espírito clássico do “western” (com neve!...), mas também o reencontro com a dimensão mais grandiosa do cinema.

Como foi amplamente divulgado e comentado, Tarantino e Robert Richardson, hiper-talentoso director de fotografia, apostaram numa rodagem em película de 70mm, formato que, como é sabido, há muito caiu em desuso. O filme foi mesmo apresentado em projecção nesse formato em cerca de uma centena de salas, quase todas no mercado dos EUA.

Ironia dos tempos: depois dessa celebração do cinema “maior que a vida”, “Os Oito Odiados” pode ser visto pelos assinantes da Netflix (pelo menos nos EUA e Reino Unido) em formato de mini-série, quatro episódios, dita “extended version”: a duração total passou a ser de 210 minutos, mais 43 do que a versão que vimos nos cinemas (recuperando material que ficou de fora).

Convenhamos que o facto de Tarantino ter aceite fazer esta remontagem do seu filme é, no mínimo, paradoxal. E não se trata, entenda-se, de favorecer qualquer moralismo fácil. Goste-se mais ou goste-se menos de um filme que passa a existir em duas versões, Tarantino coloca-se no centro vivo (e muito agitado!) de um drama transversal: o cinema existe “mais” ou existe “menos” quando sai do ambiente clássico das salas? É

mais que provável que a pergunta seja relançada no âmbito do Festival de Cannes (14-25 Maio), a cuja Palma de Ouro Tarantino volta a concorrer com “Era uma Vez em Hollywood”.

De forma absolutamente esquemática, direi apenas que, com mais ou menos especulações estéticas, não me parece possível que a vida comercial do cinema possa dispensar as salas escuras. Problema em aberto, sem dúvida... O certo é que semelhante perspectiva não pode ignorar a actualidade de um factor que, precisamente, se ilustra na nova forma de difusão de “Os Oito Odiados”. A saber: um novo e perverso jogo de contaminações entre cinema, televisão e plataformas de “streaming” cujo desenvolvimento ninguém pode adivinhar.

Não deixa de ser curioso referir que, ao mesmo tempo, no âmbito do Festival de Tribeca, em Nova Iorque, Francis Ford Coppola tenha apresentado aquela que definiu como a “versão final” da sua obra-prima “Apocalypse Now” (1979). O filme existiu durante muito tempo com a duração de 153 minutos, tendo sido relançado em 2001, numa versão longa, “Apocalypse Now Redux”, com 202 minutos. Agora, com o título “Apocalypse Now: Final Cut”, num restauro 4K executado a partir do negativo original, a duração passou a ser de 182 minutos.

Enfim, o mínimo que se pode dizer é que o cinema parece estar a entrar numa era “folhetinesca” em que cada filme pode ser concebido como um objecto sempre sujeito a novas versões e reconversões. Para melhor? Para pior?

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