Cultura

Prémio Pessoa defende declaração de estado de emergência ambiental

NUNO VEIGA / LUSA

Entrevista a Miguel Bastos Araújo.

O biogeógrafo Miguel Bastos Araújo, que recebe esta segunda-feira o Prémio Pessoa, na Culturgest em Lisboa, defende a importância dos Governos declararem estado de emergência ambiental e agirem em consonância com essa emergência. O investigador lembra que o alcance dos impactos que estamos a causar não tem precedente na história da humanidade e considera que estamos à beira de viver num mundo "com muito menos peças do puzzle biológico" que suporta a vida na Terra.

Lembra-se o que queria ser em adulto, quando era criança?

Passei por várias fases, desde explorador de grutas quando era criança de tenra idade, a zoogeógrafo (o biogeógrafo que se especializa na distribuição dos animais), no início da adolescência.

Como surgiu à ligação à Biologia?

Ela sempre existiu. É possível que houvesse uma predisposição pessoal para a Biologia mas terão sido determinantes as influências do meu avô e do meu pai. O primeiro pelas suas vivências em África que me transmitiu, em particular como caçador e fotógrafo de natureza, amador, e o segundo pela sua formação em biologia e por me ter ensinado a descobrir e observar o mundo das pequenas coisas... artrópodes e pequenos vertebrados.

Porque é que decidiu licenciar-se em Geografia?

Estive entre escolher Biologia e Geografia mas acabei por colocar Geografia como primeira opção e Biologia como segunda. Estando interessado em biogeografia, ambas áreas disciplinares eram pertinentes. Mas o currículo de Geografia pareceu-me mais atraente e pensei que as bases de biologia que me faltariam para trabalhar em biogeografia poderiam ser adquiridas ao nível da formação pós-graduada. Não me enganei.

Olhando para aquilo que foi o seu percurso académico e científico até agora, do que mais se orgulha?

O meu trabalho é de certo modo percursor de um novo domínio de investigação em biogeografia que apelido de biogeografia preditiva. Isto é, o estudo dos padrões de distribuição das diferentes manifestações da vida no planeta de modo a criar modelos que permitam prever como se alteram esses padrões em dimensões temporais diferentes da atual, sejam elas no futuro ou no passado. Neste domínio de investigação desenvolvi trabalho extensivo para compreender as incertezas que estão associadas à construção de modelos preditivos de biodiversidade.

O que sabemos hoje, quer sobre a perda de biodiversidade, quer sobre as alterações climáticas, deveria levar os governos a decretarem emergência ambiental, e a agirem em consonância com essa emergência?

Sem dúvida. Estamos à beira de um mundo novo que emerge dos excessos de transformação do território e de exploração de recursos. Esse mundo novo será climaticamente diferente do atual, mais quente, em certos lugares mais seco e noutros mais húmido. E será um mundo mais simplificado, com muito menos peças do puzzle biológico que constitui a biodiversidade, e com menos capacidade de produzir os chamados serviços dos ecossistemas essenciais à vida. O alcance dos impactos que estamos a criar ainda é escassamente compreendido pois não existe precedente na história da humanidade, mas sabemos que o grosso da fatura será pago pelos nossos descendentes diretos.

A política interessa-lhe? Vê-se no futuro a fazer outra coisa, que não a investigação científica?

Quem trabalha na área do ambiente dificilmente se pode alhear da dimensão política da sua área de trabalho. Da mesma forma que alguém que trabalha em investigação biomédica não se pode alhear da dimensão aplicada do seu trabalho na área das ciências da saúde. De todas as formas, consciente que estou das responsabilidades políticas de quem trabalha em investigação na área do ambiente, a minha escolha, consciente, foi a ciência e não a política. No que diz respeito uma eventual intervenção política não posso dizer que "desta água não beberei" mas de momento a prioridade continua a ser o trabalho científico.