Cultura

À procura dos “cowboys” perdidos

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Foi há 50 anos que chegou às salas de cinema “A Quadrilha Selvagem”, de Sam Peckinpah, um verdadeiro requiem pelos heróis do “western” clássico. É o tipo de filme que merecia ser descoberto e redescoberto num grande ecrã.

Está quase a perfazer-se meio século sobre a data de estreia de “A Quadrilha Selvagem”, o célebre “The Wild Bunch” realizado por Sam Peckinpah. Foi, de facto, a 18 de Junho de 1969 que chegou às salas americanas esse “western” que, num certo sentido, acabou com o... “western”.

A contradição é simples de explicar. Ao colocar em cena um bando de velhos “cowboys” envolvidos nas convulsões da fronteira México/EUA, Peckinpah filmava, já não heróis clássicos, mas sim homens errantes, cada vez mais inadaptados a um tempo que, na melhor das hipóteses, os tinha reduzido a lendas distantes.

Aliás, o filme já não se passava no período mais típico do “western”, ou seja, a segunda metade do século XIX. A acção tinha lugar no ano de 1913 e os seus esforçados anti-heróis, definitivamente incapazes de traçar uma linha clara entre o Bem e o Mal, eram, afinal, figuras ameaçadas de extinção (física e simbólica). Como se escrevia no cartaz da época, a quadrilha do título era constituída por “nove homens que chegaram demasiado tarde e ficaram demasiado tempo”.

Não por acaso, o requiem de Peckinpah integrava alguns actores, também eles lendários, do período clássico de Hollywood — lembremos William Holden, Ernest Borgnine ou Robert Ryan. Dir-se-ia que o “western” estava a esgotar-se no desencanto da sua própria mitologia. Coincidência irónica: foi no mesmo ano

de 1969 que John Wayne surgiu a protagonizar um outro “western” — “A Velha Raposa”, com realização de Henry Hathaway —, acabando por obter, na categoria de melhor actor, o único Oscar da sua carreira.

Filmes como estes existem, felizmente, no mercado do DVD e Blu-ray (a edição em Blu-ray de “A Quadrilha Selvagem” é muito boa na qualidade de transcrição e também na variedade de extras). O certo é que, salvo raríssimas efemérides, desapareceram por completo das salas escuras.

Apontar essa ausência não é um banal gesto de nostalgia cinéfila. Trata-se apenas de reconhecer que o mercado desistiu daquilo que, em tempos não muito distantes, foi um importante trunfo comercial. A saber: a regular revisitação dos grandes clássicos através de “reposições” em cópias novas e restauradas. Perdidos no nosso imaginário, os “cowboys” de Peckinpah (e de muitos outros cineastas da mesma época) merecem ser redescobertos num grande ecrã.