Cultura

Hollywood no tempo de Judy Garland

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

As memórias cinéfilas de Judy Garland passam por um título fundamental: “O Feiticeiro de Oz”. Trata-se de um filme com data de 1939, um ano de ouro na produção de Hollywood.

Será algo mais do que a futilidade de uma moda. Em qualquer caso, é algo menos que um movimento estético. O certo é que na produção cinematográfica dos últimos tempos proliferam as evocações mais ou menos biográficas de figuras do espectáculo. “Bohemian Rhapsody”, sobre Freddie Mercury, será o exemplo mais óbvio, logo seguido de “Rocketman”, dedicado a Elton John.

Entretanto, ainda para 2019 (10 de Outubro em Portugal), está anunciada a estreia de “Judy”, um retrato de Judy Garland (1922-1969) realizado por Rupert Goold, com Renée Zellweger no papel central. Para alguns analistas americanos é, desde já, um título a ter em conta na próxima temporada de prémios, desembocando nos Óscares de 2020 (9 de Fevereiro).

Como é natural, Judy Garland é um nome muito menos conhecido das novas gerações de espectadores. Podemos até lembrar que outra grande figura do cinema e da música, Liza Minnelli, é sua filha, mas não parece que tal informação venha a ter alguma influência no apelo do próprio filme (“bom” ou “mau”, veremos...).

Ainda assim, vale a pena recordar que Judy Garland é uma referência emblemática de um título que, apesar de tudo, se revela capaz de transcender as fronteiras das gerações. Ou seja: “O Feiticeiro de Oz”, produção de 1939 centrada na aventura surreal da pequena Dorothy (Judy, com 16 anos na altura da rodagem) que, com o seu cão

Toto [foto], parte à procura da terra mágica de Oz, seguindo a célebre Estrada dos Tijolos Amarelos...

A realização é de Victor Fleming, cineasta que no mesmo ano assinou outro título (ainda mais) marcante na evolução de Hollywood: “E Tudo o Vento Levou”, a saga do Sul dos EUA com Vivien Leigh e Clark Gable. Tanto bastaria para relembrarmos que 1939 simboliza, de facto, um momento marcante na evolução da grande indústria cinematográfica: a nova tecnologia do som, nas salas há pouco mais de uma década, já tinha atingido um considerável grau de sofisticação, tal como o tratamento das cores, nomeadamente através do Technicolor (sistema usado tanto em “O Feiticeiro de Oz” como “E Tudo o Vento Levou”).

A lista de proezas cinematográficas do ano de 1939 é impressionante. Lembremos apenas três obras-primas a completarem 80 anos (disponíveis no mercado de DVD):

* “Young Mr. Lincoln/A Grande Esperança”, de John Ford — um retrato de Abraham Lincoln (1809-1865), ainda como advogado, cerca de trinta anos antes de ser eleito como o 16º Presidente dos EUA; com Henry Fonda a interpretar Lincoln, permanece como um dos filmes mais admiráveis que já se fizeram sobre o valor argumentativo e político das palavras.

* “Mr. Smith Goes to Washington/Peço a Palavra”, de Frank Capra — por certo um dos mais míticos papéis de James Stewart, na personagem de um jovem senador americano, ingénuo e voluntarista, confrontado com inesperadas formas de manipulação e corrupção; sem ceder a qualquer paralelismo fácil, podemos sublinhar que esta é uma subtil parábola política cuja actualidade simbólica não se perdeu.

* “Ninotchka”, de Ernst Lubitsch — deliciosa farsa política centrada numa mulher austera, representante do poder soviético saído da Revolução de Outubro, enviada a Paris para uma missão que vai ser abalada pela descoberta do... amor romântico; foi o filme que revelou a capacidade de Greta Garbo se exprimir (também) no registo cómico, a ponto de a promoção usar uma expressão que se tornou lendária: “Garbo ri”.

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