Cultura

O homem que filmou Bob Dylan

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Morreu D. A. Pennebaker, figura tutelar do cinema documental dos EUA: foi ele que realizou “Dont Look Back”, o filme que acompanha Bob Dylan na sua polémica digressão de 1965 quando, pela primeira vez, usou guitarras eléctricas nos seus concertos.

Quem não conhece o teledisco de “Subterranean Homesick Blues”? Trata-se de uma canção emblemática de “Bringing it All Back Home”, quinto álbum de estúdio de Bob Dylan, lançado em 1965.

Nele vemos Dylan a dar-nos a conhecer a letra da canção através de uma série de cartões: segurando-os com a mão direita, vai retirando um a um, com a esquerda, lançando-os para o chão. Os versos, ao mesmo tempo políticos e surreais, proclamando o seu empenho em “não seguir líderes” (“Looking for a new fool / Don’t follow leaders, watch the parkin’ meters”), reflecte as influências literárias da Beat Generation — certamente não por acaso, Allen Ginsberg (1926-1997), figura central dessa geração, surge à esquerda das imagens.

A memória de tais imagens foi recentemente revisitada pelos obituários de D. A. Pennebaker (faleceu a 1 de Agosto, contava 94 anos). Mestre do documentarismo americano, foi Pennebaker que filmou Dylan nessa tão peculiar e icónica interpretação.

Em boa verdade, não se tratava de um teledisco (aliás, a vulgarização da noção de “teledisco” teria de esperar pelo início dos anos 80, com o advento da MTV). As imagens foram registadas para funcionarem como trailer do filme “Dont Look Back” (1967), obra-prima do cinema documental, entre nós lançada como “Eu Sou Bob Dylan”. O filme acompanha a polémica digressão de

Dylan, em 1965, quando desafiou muitos preconceitos ligados à tradição folk, integrando guitarras eléctricas nos seus concertos — e as imagens de “Subterranean Homesick Blues” acabaram por ficar no próprio filme!

Pennebaker testemunhou, aliás, com militante paixão, vários momentos singulares da história da música popular, incluindo a edição de 1967 do Festival de Monterey Pop, registada em Monterey Pop (1968), integrando lendárias performances de Jimi Hendrix, Janis Joplin ou The Who. Foi também ele que registou o derradeiro concerto de David Bowie assumindo a personagem de Ziggy Stardust, em “Ziggy Stardust and the Spiders from Mars” (1973).

Até final, o seu trabalho — a partir de certa altura co-assinado com a mulher, Chris Hegedus (com quem fundou a Pennebaker Hegedus Films) — reflectiu uma visão humanista cuja atenção às manifestações da cultura popular sempre se revelou indissociável de uma metódica preocupação com os grandes temas sociais e políticos.

O título final da filmografia de Pennebaker, “Unlocking the Cage” (2016), faz a reportagem de um processo jurídico de defesa dos direitos dos animais. De qualquer modo, o seu trabalho mais célebre, já em colaboração com Hegedus, será “The War Room” (1993), acompanhando a campanha eleitoral de Bill Clinton em 1992. O filme obteve uma nomeação para o Óscar de melhor documentário, mas não ganhou; alguns anos mais tarde, em 2012, a Academia de Hollywood consagrou Pennebaker com um Óscar honorário.