Cultura

Woodstock: nostalgia e contracultura

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Foi há meio século que o Festival de Woodstock congregou meio milhão de pessoas numa celebração musical e cultural cujos ecos não se dissiparam. Na consolidação da sua memória, o cinema desempenhou um papel fundamental.

A frase promocional continua a ecoar no nosso presente: “Três dias de paz e música”. O 50º aniversário do Festival de Woodstock (15, 16, 17 de Agosto de 1969) é uma daquelas efemérides que nos ajuda a compreender a vibração simbólica e a intensidade política que a cultura popular pode envolver. De facto, a reunião de meio milhão de almas para escutar uma galeria imensa de músicos — Jimi Hendrix, Janis Joplin, Joe Cocker, Santana, Ten Years After, Richie Havens, The Who, etc., etc. — não pode ser reduzida a qualquer visão pitoresca e caricatural dos hippies e dos lendários “sixties”...

Naquele espaço lendário do condado de Bethel, Nova Iorque, desaguaram ideias e afectos, crenças e contradições que, afinal, definiam uma época de muitas perplexidades, desesperos e utopias. A transformação do lugar social dos mais jovens, a evolução dos comportamentos sexuais e, enfim, os sinais perturbantes do envolvimento dos EUA no Vietname, tudo contribuiu para que Woodstock fosse o espelho imenso, de uma só vez festivo e angustiado, de um tempo pontuado por muitas e decisivas convulsões.

Daí a insuficiência de qualquer perspectiva nostálgica sobre Woodstock. Mais do que isso: importa lembrar que o impacto do festival nada teve a ver com a velocidade (global, de facto) com que hoje circulam muitas informações, por vezes levando-nos a confundir essa velocidade com a complexidade dos factos. Nesse processo, a verdadeira rede social de difusão foi o... cinema!

Dito de outro modo: estamos também a comemorar os 50 anos do filme “Woodstock” (em rigor, 49, já que a sua estreia nas salas dos EUA viria a ocorrer em Março de 1970). Foi através do monumental registo realizado por Michael Wadleigh que o ambiente vivido em Bethel e a fascinante pluralidade das performances musicais adquiriram dimensão mitológica.

Em muitos aspectos, o filme de Wadleigh pode também testemunhar as dramáticas transformações por que estava a passar o cinema. Desde logo, porque a sua energia visual e sonora não pode ser dissociada da utilização dos métodos mais ligeiros de registo (câmaras e gravadores de som) que tinham contribuído para as muitas revoluções fílmicas da década de 60. Depois, porque na fabricação de “Woodstock” estiveram envolvidos, entre outros, dois nomes fulcrais na história moderna do cinema “made in USA”: Martin Scorsese (assistente de realização e colaborador na montagem) e Thelma Schoonmaker (a notável montadora que, a partir de 1980, com “Touro Enraivecido”, se tornaria colaboradora fiel de Scorsese).

Eram os tempos efervescentes de uma genuína contracultura, isto para utilizarmos a expressão consagrada pelo historiador e professor Theodore Roszak (1933-2011) no seu célebre ensaio “The Making of a Counter Culture”, publicado, precisamente, em 1969 (editado em Portugal, em 1971, pela Dom Quixote, com o título “Para uma Contracultura”). Em jogo estava o questionar dos valores tradicionais que enquadravam a relação entre o individual e o colectivo.

E se é verdade que não faz sentido “transpor” para o nosso presente os debates dessa época, não é menos verdade que dela recebemos uma herança cujo simbolismo persiste. A saber: não somos meros produtos automáticos das forças colectivas; somos aquilo que somos também através do modo como imaginamos o que poderíamos ser.