Cultura

Elogio do DVD

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

O mercado do DVD continua a contribuir para o conhecimento de muitas e magníficas memórias da história do cinema — em tempos recentes, vale a pena destacar a redescoberta de alguns clássicos franceses.

São francamente exageradas as notícias que dão como acabado o mercado português do DVD. Entre os exemplos possíveis da riqueza e pluralidade da sua oferta, começo por lembrar a edição, há poucos meses, de dois títulos admiráveis de Jean-Luc Godard que são também momentos incontornáveis de todo o cinema moderno: “O Acossado” (1959) e “Pedro, o Louco” (1965).

Mais recentemente, através dos primeiros três volumes de uma colecção intitulada ‘Os Grandes Mestres’, pudemos redescobrir nada mais nada menos que onze longas-metragens, rodadas entre 1936 e 1956, de mestres como Jean Renoir, Max Ophüls ou Sacha Guitry. Recordo, em particular, um dos mais belos e feéricos filmes de Renoir, “French Cancan” [foto], ou ainda “O Prazer” e “Madame de...”, dois dos títulos de Ophüls que testemunham a sua inigualável subtileza dramática e melodramática.

Como é óbvio, o significado destas referências está longe de se esgotar na sua actual disponibilidade em DVD (em vários casos, através de cópias exemplarmente restauradas). Porquê? Porque estamos perante exemplos de uma cinematografia, a francesa, que no nosso país já desfrutou de muito maior visibilidade comercial e cultural — e, como bem sabemos, uma coisa nunca é estranha à outra.

Ainda que isso possa parecer inverosímil a alguns espectadores mais jovens, é mesmo verdade que algumas cinematografias europeias — com destaque para a francesa e a italiana — já tiveram um lugar de grande evidência no mercado português. Antes de haver DVD, ironicamente...

Enfim, evitemos os esquemas demagógicos. Nenhum filme é “melhor” ou “pior” por causa da sua origem geográfica, como nenhum filme merece “mais” ou “menos” atenção em função do dinheiro gasto na sua produção. Acontece que a produção francesa nunca deixou de ser uma zona criativa em que a energia industrial (nomeadamente na interacção com as televisões) coexiste com as mais contrastadas, por vezes fascinantes, formas de experimentação estética e narrativa.

Se outras razões não houvesse, estas bastariam para reconhecer o valor de edições como as que aqui citei. Além da fundamental diversificação da oferta, tais edições contribuem para que não nos esqueçamos de todas as memórias que nos ajudam a compreender que o cinema não é um fenómeno que se possa reduzir ao ruído promocional dos “blockbusters” lançados nos últimos seis meses... O que, entenda-se, não impede que, pontualmente, entre esses “blockbusters” surjam obras magníficas que, um dia destes, talvez queiramos redescobrir em DVD.

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