Cultura

Cinema é uma “coisa” de actores

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Renée Zellweger e Joaquin Phoenix surgem, desde já, na linha da frente para os próximos Óscares de interpretação — através dos respectivos trabalhos de composição, somos de novo envolvidos na dimensão mais humana do próprio cinema.

Não será preciso ter uma bola de cristal para considerar que Renée Zellweger e Joaquin Phoenix estarão entre os nomeados para os próximos Óscares de interpretação. Aliás, há várias semanas que a imprensa especializada de Hollywood não diz outra coisa: ela pela representação de uma figura mítica do cinema americano, Judy Garland, no filme “Judy”; ele recriando uma personagem emblemática da banda desenhada e, em particular, do universo de Batman, em “Joker” [foto].

Estamos perante dois invulgares exercícios cinematográficos. No caso de “Judy”, resgatando do esquecimento (e também de muitos estereótipos artísticos e morais) uma das maiores e mais genuínas estrelas da história de Hollywood. Quanto a “Joker”, para além da sua incrível dimensão trágica (alheia aos lugares-comuns que têm marcado muitos filmes de super-heróis), acredito que não será exagero colocar o trabalho de Phoenix ao nível dessas interpretações — como a de Robert De Niro em “Taxi Driver” (1976) — em que um actor enfrenta e supera os seus limites físicos e expressivos.

Brevemente, os espectadores poderão formular a sua própria visão, uma vez que estas são duas das grandes estreias do último trimestre de 2019, ambas agendadas para o mês de Outubro (“Joker” no dia 3, “Judy” a 10). De qualquer modo, creio que vale a pena sublinhar, desde já, um valor que, mais do que nunca, importa defender e preservar. A saber: o trabalho dos actores como componente visceral do grande cinema do passado e do presente.

Não pretendo, entenda-se, menosprezar o facto de em todas as épocas, e nos mais variados contextos, podermos encontrar filmes que envolvem impressionantes desafios técnicos. Acontece que o actual discurso beato em torno dos efeitos especiais (como se os efeitos especiais fossem um fim em si mesmo...) tem favorecido uma celebração banalmente “tecnológica” do cinema que, afinal, menospreza todos os investimentos humanos que estão na base de um filme.

O cinema é, ou pode ser, essa “coisa” misteriosa e fascinante que nos apresenta personagens e situações que, mesmo quando nos levam a reconhecer o mundo em que vivemos, nos levam também a sentir esse mundo para além de ideias feitas e certezas postiças.

Neste caso, acredito que Phoenix será o vencedor “obrigatório” do Oscar de melhor actor e também que Zellwegger é uma candidata fortíssima ao prémio de interpretação feminina. Mas nada disso envolve qualquer profecia... Com ou sem Óscares, acontece que “Judy” e “Joker” nos devolvem o prazer de contemplar a vida vivida e a vida reinventada no ecrã de uma sala escura — isso é, para mim, o essencial.