Cultura

Cinema digital… ou talvez não

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

O digital passou a ser fundamental em importantes domínios do cinema, da rodagem dos filmes à projecção nas salas escuras. Em qualquer caso, a tradicional película de 35 mm está longe de ser um recurso abandonado.

Consideremos alguns filmes, de origens, temáticas e estéticas muito diferentes, lançados ao longo dos últimos dois anos:

— READY PLAYER ONE: JOGADOR 1, a vertiginosa aventura de ficção científica assinada por Steven Spielberg, adaptando um romance de Ernest Cline;

— CHUVA É CANTORIA NA ALDEIA DOS MOROS, misto de documentário e ficção sobre o povo Krahô, no Brasil, realizado por Renée Nader Messora e João Salaviza;

— SHOPLIFTERS: UMA FAMÍLIA DE PEQUENOS LADRÕES, insólita crónica familiar que valeu uma Palma de Ouro, em Cannes, ao japonês Hirokazu Kore-eda.

— SUSPIRIA [foto], recriação de um clássico do cinema de terror italiano, de Dario Argento, agora por Luca Guadagnino;

— ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD, a já clássica evocação da “fábrica de sonhos” em 1969 com a marca inconfundível de Quentin Tarantino.

Pois bem, que há de comum a estes títulos? Como nos recorda a Kodak no seu site oficial [kodak.com], são apenas alguns, entre várias dezenas, que em tempos recentes utilizaram película de 35 mm nas respectivas rodagens.

A questão poderá parecer um mero detalhe técnico, apenas pertinente para alguns domínios (e dos mais especializados) no interior da indústria cinematográfica. Em boa verdade, o que está em jogo excede tal perspectiva.

De facto, o “boom” do digital, desde as filmagens até aos sistemas de projecção nas salas escuras, está longe de ser universal. Não que haja qualquer resistência sistemática ao digital, mas é um facto que muita gente mais que respeitável (a começar por Martin Scorsese, militante destas questões) tem insistido na importância de não desvalorizar os recursos da película: há certas cores, texturas e formas particulares de tratamento de luz que apelam à utilização da película “contra” o digital.

Em jogo estão também os métodos de preservação do património cinematográfico. Assim, embora o digital esteja a desempenhar um papel fulcral nesse domínio (veja-se a quantidade de clássicos restaurados em 4K, disponíveis em DVD ou Blu-ray), acontece que o processo de restauro de alguns filmes suscita, nem que seja numa fase intermédia, a utilização da película.

Resta saber se este movimento em favor da película poderá ter eco no mercado global, isto é, na oferta das grandes marcas e na procura protagonizada pelo cidadão comum. Que é como quem diz: poderemos assistir a uma revalorização das câmaras (cinematográficas e fotográficas) com película? E assistiremos, então, a um renascimento dos laboratórios de revelação? Parece uma utopia com o seu quê de absurdo… mas, se me é permitido um desabafo muito pessoal, podem contar com o meu apoio.