Cultura

Peter Handke: ler, escrever, filmar

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

O vencedor do Nobel da Literatura de 2019 é também um autor ligado ao mundo do cinema, com várias colaborações com Wim Wenders, incluindo o argumento do clássico “As Asas do Desejo”.

Há poucos anos, por altura do lançamento em França do filme de Wim Wenders “Os Belos Dias de Aranjuez”, baseado na sua própria peça, Peter Handke apresentou-se numa entrevista televisiva (aliás, na companhia de Wenders) como um “bom leitor” e um “bom espectador”. Eis uma bela definição de alguém que, sendo um bom escritor (excepcional, em boa verdade), nunca deixou de ser um homem das imagens e, através delas, da imaginação.

Enfim, nesta altura de consagração com o Nobel da Literatura, não necessitamos de evocar muitas referências para sublinhar o facto de o trajecto cinematográfico de Handke estar longe de ser uma curiosidade secundária na sua condição de autor — na mesma entrevista, ele confessava mesmo preferir a palavra “autor” a “escritor”.

Afinal de contas, foi Handke que escreveu o argumento do mais famoso filme de Wenders, “As Asas do Desejo” (1987), e em particular esse texto belíssimo, habitualmente identificado como “Canção da Infância”, que escutamos na cena de abertura, na voz inconfundível de Bruno Ganz. Começa assim (e peço desculpa pelas hesitações de uma tradução feita a partir de uma versão inglesa):

“Quando a criança era uma criança

Caminhava balouçando os braços,

Queria que o riacho fosse um rio,

O rio uma corrente,

E que esta poça fosse o oceano.”

A colaboração entre Wenders e Handke iniciou-se com “A Angústia do Guarda-Redes no Momento do Penalty” (1972), tendo como base um argumento do primeiro escrito a partir do romance do segundo [na foto: Handke e Wenders]. Aliás, nessa década de profunda renovação da produção de língua alemã, Handke assinaria a sua primeira longa-metragem para cinema, “A Mulher Canhota” (1978), adaptando o seu romance publicado dois anos antes.

Não será por acaso que toda a obra literária de Handke está marcada (e, num certo sentido, assombrada) por um tema, também ele, profundamente cinematográfico. Ou seja: a definição do “lugar” como questão visceral da própria identidade humana.

Dito de outro modo: algo muda em nós quando mudamos o lugar em que vivemos, do mesmo modo que mudamos quando nos exprimimos numa língua que não seja a nossa língua materna. Curiosamente, um dos seus livros mais recentes, publicado em 2012, tem como título uma expressão de envolvente nostalgia: “Ensaio sobre o Lugar Tranquilo”.