Cultura

A lição de Martin Scorsese

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

O realizador de “Taxi Driver”, “Gangs de Nova Iorque” e “O Lobo de Wall Street” chama-nos a atenção para a urgência de pensar a sobrevivência cultural e comercial do cinema para além dos filmes de super-heróis — vale a pena escutar as suas palavras pedagógicas.

Fotografias como esta são mais do que curiosidades museológicas, porventura nostálgicas — são testemunhos de uma criatividade artística que, em boa verdade, marca mais de meio século de história do cinema americano e, afinal, de todo o cinema. Nela vemos, da esquerda para a direita, Jodie Foster, Robert De Niro e Martin Scorsese durante a rodagem de “Taxi Driver” (1976).

Dito de outro modo: Scorsese não é um novato na história dos filmes, mas sim alguém que, da ousadia temática e estética do seu trabalho até à defesa do património cinéfilo, tem contribuído de modo decisivo para a celebração de uma arte com valores próprios e linguagens específicas.

Nas últimas semanas, nos EUA, Scorsese tem sido alvo de reparos mais ou menos sarcásticos, por vezes francamente deselegantes. Motivo: os seus comentários pouco entusiastas à actual vaga de filmes de super-heróis, em especial os que têm chancela da Marvel. São dele estas declarações à revista britânica “Empire”: “Tentei [ver esses filmes], sabem? Mas aquilo não é cinema. Tendo em conta como são bem feitos, com actores a tentarem o melhor que sabem naquelas circunstâncias, honestamente, o mais que posso pensar deles é que são parques temáticos. Não é o cinema de seres humanos tentando partilhar experiências emocionais e psicológicas com outros seres humanos.”

Na melhor das hipóteses, os opositores mais moderados tentaram contrapor à visão de Scorsese uma evidência… Mas então as pessoas não vão às salas de cinema para ver esses filmes — como podem não ser cinema?

Enfim, vale a pena pensar um pouco mais para além do tratamento literal das palavras. E foi o próprio Scorsese que, no sábado (12 Out.), na sessão de encerramento do Festival de Londres (com o seu filme “The Irishman”), voltou ao assunto, propondo uma lição genuinamente pedagógica de quem, além do mais, aos 76 anos de idade, autor de uma obra única no panorama contemporâneo das artes, não está para brincar com coisas sérias.

Voltou a referir que os “cinemas se tornaram parques de diversões”. E se para ele a questão não está em colocar em causa “aqueles que admiram esse tipo de filmes”, importa perguntarmo-nos o que está a acontecer quando o mercado se apresentado por eles “invadido”.

A questão essencial não é, por isso, teórica, muito menos abstracta — é mesmo visceralmente comercial. Porquê? Porque se está a “criar uma outra audiência que pensa que o cinema é aquilo”, continuando a afastar das salas muitos espectadores, de todas as gerações, que querem apenas encontrar algo que decorra da arte e do artesanato de mais um século de história do cinema. Parques temáticos? Nada disso: “Precisamos que as salas reforcem a sua posição e mostrem filmes que sejam filmes narrativos.”

Questão em aberto, sem dúvida, quanto mais não seja porque os modelos impostos pela Marvel estão longe de ser o “mal” a erradicar. É um problema de diversificação e abertura de pensamento que está em causa. Até porque no dia em que o mercado já só saiba proteger e promover os filmes de super-heróis (“bons” ou “maus”, não é isso que está em causa), é todo um sistema cultural que se desmorona. Entenda-se: cultural quer também dizer económico.