Cultura

Memórias do velho Oeste

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Com Robert Redford, Paul Newman e Katharine Ross, “Dois Homens e um Destino” ficou como um caso exemplar entre os “westerns” que reviram, de forma crítica, os factos e os mitos do Oeste americano — foi há 50 anos.

Foi há 50 anos que se estreou nas salas dos EUA o filme “Butch Cassidy and the Sundance Kid” (a 24 de Outubro de 1969), um “western” com Robert Redford e Paul Newman [foto]. Neste tempo de muitos heróis digitais, perdidos em aventuras mais ou menos virtuais, valerá a pena recordar que nele encontrávamos, não um delírio de ruidosos efeitos especiais, mas sim uma história que não podia ser dissociada dos factos e dos mitos narrados no “western” clássico.

Realizado por George Roy Hill, lançado em Portugal como “Dois Homens e um Destino”, tratava-se, afinal, de um dos muitos filmes que, de forma crítica, reviram e reavaliaram os modos tradicionais de retratar a vida (e a morte) no velho Oeste. Pertence a uma vaga transformadora em que também encontramos “O Vale do Fugitivo”, de Abraham Polonsky, e “A Quadrilha Selvagem”, de Sam Peckinpah, ambos também, curiosamente, lançados em 1969.

De forma insólita e paradoxal, por vezes perturbante, a América revia-se nos seus heróis, discutindo o próprio conceito de heroísmo e, por fim, enfrentando as contradições de uma época que estava longe de ser um paraíso redentor. Butch Cassidy e Sundance Kid (Newman e Redford, respectivamente) surgiam como os bandidos simpáticos que, à margem da lei, testemunhavam a consolidação de uma nova ordem social em que, afinal, já não tinham lugar — sem que, ao mesmo tempo, houvesse lugar para mais heróis redentores.

A sedução do filme provinha da sua capacidade de reconverter em ironia e humor aquilo que, por exemplo, nos citados filmes de Polonsky e Peckinpah, pertencia por inteiro ao domínio da tragédia. Há mesmo em “Dois Homens e um Destino” um toque de romantismo indissociável da presença de Katharine Ross (celebrizada, dois anos antes, com “A Primeira Noite”, em que contracenava com Dustin Hoffman) e da música de Burt Bacharach. A sua canção “Raindrops Keep Fallin’ on My Head”, premiada com um Oscar, há muito pertence aos “standards” da música popular.