Cultura

Os melhores filmes de sempre segundo Hollywood

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

A ideia de escolher os “melhores de sempre” a partir dos profissionais que trabalham na indústria foi de “The Hollywood Reporter”, uma das mais prestigiadas publicações dedicadas à arte e ao comércio do “entertainment” — os resultados são, no mínimo, desconcertantes…

As listas dos “melhores filmes de sempre” são sempre sugestivas e, por assim dizer, tentadoras. E escusado será dizer que são também inevitavelmente (e salutarmente) relativas: as singularidades de uma lista não anulam, nem desmentem, as singularidades de outra lista…

Daí a curiosidade que não poderia deixar de suscitar uma dessas listas que não foi obtida a partir dos tradicionais universos de votantes, quer dizer, os críticos de cinema ou os cineastas. A proposta provém de “The Hollywood Reporter”, uma das publicações mais prestigiadas, e também mais antigas (fundada em 1930), dedicada à actividade da indústria norte-americana do “entertainment”. Fundamenta-se numa opção muito simples. A saber: pedir aos próprios profissionais dessa indústria — isto é, ao mundo de Hollywood (estúdios, empresas de produção, agências de publicidade, etc.) — que apresentassem as suas escolhas dos “melhores filmes de sempre”. O número de votantes seria significativo: 2.120.

Não pretendo, de modo algum, opor qualquer outra lista à que foi divulgada por “The Hollywood Reporter”. Insisto: uma escolha deste teor pode e deve ser desdramatizada, considerando-a, antes do mais, como um inventário que nos pode ajudar a (re)ver aspectos fundamentais da história do cinema — e escusado será dizer que qualquer espectador encontrará nesta lista muitos e admiráveis exemplos da arte cinematográfica.

Em qualquer caso, não deixa de ser desconcertante o alheamento quase total do cinema gerado fora dos EUA (ou, genericamente, para lá do espaço anglo-saxónico). E quem o diz é o próprio texto de apresentação de “The Hollywood Reporter”, referindo que há “omissões chocantes”, citando mesmo três exemplos: “Os 400 Golpes”, de François Truffaut (um dos títulos fundadores da Nova Vaga francesa), “La Dolce Vita”, de Federico Fellini (referência lendária da produção italiana e europeia”), e “A Quimera do Ouro”, de Charlies Chaplin (um dos filmes mais universais do vagabundo Charlot).

Outros parâmetros podem ser evocados. Assim, entre os poucos países estrangeiros citados na lista surgem, apenas com um filme cada, o Japão (“Os Sete Samurais”, de Akira Kurosawa) e a França (“O Fabuloso Destino de Amélie”, de Jean-Pierre Jeunet), estando a língua espanhola representada também apenas uma vez (“O Labirinto do Fauno”, de Guillermo del Toro). Além disso, mestres absolutos como o americano John Ford, o soviético Sergei Eisenstein ou o alemão F. W. Murnau estão ausentes — e quando Hollywood já não se lembra de Ford, para mais um dos que encenou a mitologia fundadora da própria nação americana, convenhamos que algo de estranho está a acontecer.

Para a estatística, lembremos que “O Padrinho” surge em primeiro lugar, garantindo, pelo menos, que neste universo de memórias atribuladas ainda há quem conheça Marlon Brando [foto]. Eis o top 10:

1 - O PADRINHO (Francis Ford Coppola, 1972)

2 - O FEITICEIRO DE OZ (Victor Fleming, 1939)

3 - O MUNDO A SEUS PÉS (Orson Welles, 1941)

4 - OS CONDENADOS DE SHAWSHANK (Frank Darabont, 1994)

5 - PULP FICTION (Quentin Tarantino, 1994)

6 - CASABLANCA (Michael Curtiz, 1942)

7 - O PADRINHO: PARTE II (Francis Ford Coppola, 1974)

8 - E.T., O EXTRA-TERRESTRE (Steven Spielberg, 1982)

9 - 2001: ODISSEIA NO ESPAÇO (Stanley Kubrick, 1968)

10 - A LISTA DE SCHINDLER (Steven Spielberg, 1993)