Cultura

A guerra vista pelo cinema

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Três reposições recentes lembram-nos como o cinema tem lidado com os horrores da guerra: os filmes de Elem Klimov, Francis Ford Coppola e Steven Spielberg são lições exemplares de humanismo.

No rosto do jovem Aleksey Kravchenko [foto], na altura com 15 anos, encontramos a expressão contundente do horror da guerra. Mais exactamente, ele é a personagem que nos guia na evocação das actrocidades cometidas pelas tropas nazis na Bielorrúsia, nesse clássico absoluto do filme de guerra que é “Vem e Vê” (1985), de Elem Klimov.

O filme de Klimov, uma das grandes reposições de 2019 no mercado português, para mais em impecável cópia restaurada (também já editada em DVD), recorda-nos como é difícil ser realista. Aliás, podemos aproximar a questão de outros dois títulos clássicos, ambos americanos, também recentemente reapresentados entre nós (neste caso no CCB): “Apocalypse Now” (1979), a viagem trágica de Francis Ford Coppola pelas memórias da guerra do Vietname, e “O Resgate do Soldado Ryan” (1998), de Steven Spielberg, evocando o desembarque dos Aliados na Normandia, em 1944.

Escusado será dizer que estamos perante três objectos cujas singularidades não podem ser rasuradas apenas porque utilizamos esse rótulo global de “filmes de guerra”. Ainda assim, não será

abusivo dizer que todos se confrontam com um dilema expressivo cuja actualidade (artística e política) se mantém: por um lado, as suas imagens e sons possuem uma força expressiva que tem qualquer coisa de reportagem jornalística; por outro lado, o modo como nos envolvem é inseparável de escolhas figurativas e simbólicas que, por assim dizer, transfiguram o real em surreal.

As palavras emblemáticas da personagem de Marlon Brando em “Apocalypse Now” são inesquecíveis: “O horror, o horror...” não é uma mera descrição do caos à sua volta, é também algo que nos faz lidar com as imagens, não como meras “ilustrações”, antes como elementos que carecem sempre da justeza das palavras.

Há, por isso, qualquer coisa de didáctico nos trabalhos tão diversos de Klimov, Coppola e Spielberg. Nestes tempos de aceleração mediática, por vezes admirável, outras vezes simplista, o cinema (alguns filmes, pelo menos...) lembra-nos como é importante olhar para lá do que é imediato ou imediatista. São três filmes — a ver e rever — cujo humanismo exemplar é-o tanto mais quanto não desiste de enfrentar os monstros da existência humana.