Cultura

"Joker”: mil milhões de dólares

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Eis um espectacular fenómeno de bilheteiras que importa conhecer e compreender: entre os filmes classificados para adultos nas salas dos EUA, “Joker” é o primeiro a ultrapassar os mil milhões de dólares de receitas no mercado global.

Quando se fala dos dinheiros que a produção cinematográfica envolve, creio que vale a pena recordar uma dupla regra que, a meu ver, deve ser aplicada no trabalho da crítica de cinema.

Em primeiro lugar, o valor que se atribui a um determinado filme é completamente exterior a qualquer consideração sobre os custos da sua produção ou a sua performance comercial: uma superprodução não é “boa” nem “má” por envolver um orçamento galáctico, do mesmo que o mais austero filme independente não se torna “interessante” ou “desinteressante” por ter sido feito com meia dúzia de tostões.

Ao mesmo tempo, creio que é importante que qualquer análise dos filmes não menospreze o conhecimento das conjunturas económicas, e também das dinâmicas financeiras, em que tais filmes foram produzidos e/ou são difundidos. Por vezes, esse conhecimento pode mesmo enriquecer a mais básica compreensão dos modos, linguagens e narrativas desses filmes.

Tudo isto para sublinhar uma notícia conhecida este fim de semana. Assim, as receitas globais do filme “Joker”, de Todd Phillips, com Joaquin Phoenix, ultrapassaram a barreira dos mil milhões de dólares (cerca de 905 milhões de euros). Trata-se de um novo recorde de receitas para as produções que, nos EUA, tenham recebido a classificação etária “R” ("Restricted”, estabelecendo que os menores de 17 anos só podem assistir quando acompanhados por um adulto responsável, familiar ou não).

Posso recordar que, desde o momento da estreia, considero “Joker” um admirável objecto de cinema. É, a meu ver, um dos grandes filmes de 2019 e também um dos títulos que, acredito, através do seu labirinto de tragédia social e cepticismo moral, ficará como uma das referências simbólicas mais reveladoras da “era Donald Trump”.

Mas esse é um detalhe que, naturalmente, o leitor que discorde do meu juízo de valor irá, com toda a legitimidade, secundarizar. Acontece que para lá das salutares diferenças de sensibilidade e pensamento, a aritmética do “box office” vem pôr em causa uma (falsa) evidência que, de facto, importa problematizar e discutir. Na verdade, os filmes que visam as audiências juvenis, estatisticamente dominantes no mercado cinematográfico, não esgotam as possibilidades da indústria e do comércio.

Nesta perspectiva, o sucesso de “Joker” é tanto mais importante quanto vem contrariar o esquematismo corrente, favorecido por muitas formas de marketing, que tende a fazer crer (nem que seja por perversa sugestão) que todos os objectos de espectáculo estão obrigados a ser cada vez mais infantis e infantilizados... Como se prova, mesmo no interior do universo ligado às aventuras com super-heróis, continua a haver espaço para narrativas adultas.

Tudo isto sem esquecer o relativismo destas contas. A maneira mais correcta de entender a performance comercial dos filmes ao longo das décadas passa também pela reconversão das respectivas receitas em função do tempo que passou (leia-se: da inflação, logo da evolução dos preços dos bilhetes).

Consulte-se, por exemplo, a lista dos mais rentáveis de sempre nos EUA obtida através dessa reconversão: o líder não é a da Marvel nem da Disney; continua a ser “E Tudo o Vento Levou”, uma produção de 1939. Mais do que isso: no Top 10 não há um único título que tenha sido lançado no século XXI. E “Joker”? Pois bem, para já, ainda não atingiu valores que lhe permitam aparecer nos primeiros 200 lugares da lista...

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