Cultura

Martin Scorsese, guardião da cinefilia

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Através do seu labor à frente de um organismo como The Film Foundation, Martin Scorsese tem desempenhado um papel fundamental na conservação e restauro de muitos filmes clássicos das mais variadas origens.

Martin Scorsese está na actualidade cinematográfica graças a “O Irlandês”, uma produção da Netflix. Em alguns países, incluindo Portugal, a sua difusão nessa plataforma de “streaming” não será precedida de uma passagem nas salas escuras (como aconteceu nos EUA). Tanto tem bastado para que “O Irlandês” esteja no centro de um amplo debate sobre o futuro do próprio cinema, suas formas de produção e difusão.

Debate complexo, sem dúvida, que importa travar evitando qualquer maniqueísmo artístico ou económico. Por isso mesmo, vale a pena lembrar que não há maneira de conservar a cinefilia (o amor do cinema, precisamente) se não existir uma consciência real da sua história. Dito de outro modo: é fundamental preservar o património cinematográfico.

Vem a propósito recordar que Scorsese tem sido um guardião exemplar do cinema, desde que, em 1990, criou The Film Foundation. Trata-se de uma entidade não lucrativa empenhada na angariação de fundos para preservação de filmes e, mais do que isso, promotora de programas de informação e educação que visam sensibilizar a indústria, e os próprios espectadores, para o valor insubstituível dos filmes mais ou menos “antigos”. Entre os cineastas que, desde o primeiro momento, acompanharam Scorsese estão Woody Allen, Francis Ford Coppola, Clint Eastwood, Robert Redford e Steven Spielberg.

Em 2007, a fundação gerou o World Cinema Project, uma derivação global, como o nome indica, envolvendo realizadores de todo o mundo como o mexicano Guillermo Del Toro, o brasileiro Walter Salles ou o alemão Wim Wenders.

A lista de filmes que o World Cinema Project já ajudou a recuperar inclui títulos tão importantes como “Limite” (1931), de Mário Peixoto, objecto lendário do cinema brasileiro, “Los Olvidados” (1950), referência central do período mexicano de Luis Buñuel [foto], ou “A Brighter Summer Day” (1991), um dos modernos clássicos da produção de Taiwan assinado por Edward Yang.

Este é, enfim, um trabalho cuja dimensão museológica importa destacar sem equívocos. Assim, não se trata de criar cópias “inertes” de filmes mais ou menos distantes no tempo. Nada disso. O restauro destes filmes permite (re)lançá-los nos mais diversos circuitos, desde o mercado do DVD e Blu-ray até aos canais de cabo especializados em cinema. Eis um labor de revalorização da memória em que o passado está a ser permanentemente redescoberto e, mais do que isso, partilhado no presente.