Cultura

Para redescobrir Stanley Kubrick

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

A reposição de “De Olhos Bem Fechados”, título final de Stanley Kubrick, é um acontecimento especial que nos permite reencontrar o génio de um dos autores marcantes do cinema do século XX.

Eis uma notícia com especialíssimas ressonâncias cinéfilas: o filme final de Stanley Kubrick, “De Olhos Bem Fechados” (1999), está de regresso às salas escuras. Não será uma reposição em sentido tradicional, antes algumas sessões dispersas, a partir de hoje (2 dezembro), no Espaço Nimas, em Lisboa, e depois em salas de várias cidades do país.

Digamos, para simplificar, que se trata de um dos títulos incontornáveis do final do século XX. O retrato íntimo protagonizado pelo par Nicole Kidman/Tom Cruise [foto] corresponde a uma espécie de derradeira viagem pelos restos do romantismo. Dir-se-ia que a história daquele par nos confronta com a fragilidade de qualquer redenção romântica, de tal modo as relações humanas passaram a estar assombradas pelas mais perversas formas de mercantilismo.

Kubrick sempre foi um autor capaz de desafiar os limites dos géneros tradicionais do cinema. Para nos ficarmos por dois exemplos, lembremos o modo como ele refaz e, num certo sentido, dinamita as convenções da ficção científica e do filme de guerra em “2001: Odisseia no Espaço” (1968) e “Nascido para Matar” (1987), respectivamente.

No caso de “De Olhos Bem Fechados”, Kubrick adapta uma novela de Arthur Schnitzler (“Traumnovelle”), publicada em 1926, transpondo-a para o presente. Tudo se passa como se a narrativa do passado conservasse uma perturbante pertinência dramática e social, levando-nos a repor a questão mais cândida: que acontece na relação entre um homem e uma mulher?

Restaurado para esta efeméride dos seus 20 anos, “De Olhos Bem Fechados” inscreveu-se na história como um trágico testamento. Assim, no dia 1 de Março de 1999, Kubrick mostrou a sua montagem final a Kidman e Cruise, e também aos executivos do estúdio produtor (Warner Bros.); o seu falecimento ocorreu seis dias mais tarde, portanto a 7 de Março — contava 70 anos.