Cultura

À espera dos Óscares (4)

Sam Mendes, com o actor George MacKay, durante a rodagem de "1917"

Photo Credit: François Duhamel

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

A cerca de três semanas da 92ª cerimónia dos Óscares, “1917”, de Sam Mendes, surge como claro favorito à distinção de melhor filme de 2019 — mais do que um sofisticado método de produção, é uma visão humanista que está em jogo.

A aproximação da cerimónia dos Óscares, a realizar no dia 9 de fevereiro, em Hollywood, vai gerando as habituais especulações e previsões. Aliás, nos EUA, há todo um sistema de apostas que é devidamente (e oficialmente) acompanhado por actualizações regulares das possibilidades dos apostadores.

Neste momento, por exemplo, a realização de Sam Mendes, “1917”, surge como inequívoco favorito para o Óscar de melhor filme do ano. O que, inevitavelmente, torna as respectivas apostas menos rentáveis: quem investir, por exemplo, 100 dólares, em caso de vitória de “1917”, ganhará apenas 61,5 dólares. Os vencedores mais improváveis podem valer pequenas fortunas: na cauda dos favoritos, “Le Mans ’66: o Duelo” pode transformar os mesmos 100 dólares em 20.000 dólares!

Apostas à parte, vale a pena lembrar que já foram atribuídos alguns dos mais significativos e sintomáticos prémios “pré-Óscars”. E não estou a pensar nos Globos de Ouro que, com muitas ou poucas coincidências em relação aos prémios da Academia de Hollywood, resultam de um corpo profissional — os jornalistas da imprensa estrangeira — que não pertence à própria comunidade da indústria. Penso, antes de tudo o mais, nos produtores que, através da sua associação (Producers Guild of America), distinguiram “1917” como melhor filme do ano.

Escusado será dizer que, numa estrutura de estúdios como a do cinema americano, os produtores representam um índice revelador das tendências mais significativas da indústria. O mesmo se dirá dos actores, através do seu sindicato (Screen Actors Guild), que parecem ter antecipado também os vencedores das principais categorias de representação: Joaquin Phoenix e Renée Zellweger, respectivamente em “Joker” e “Judy”. Isto sem esquecer que os actores são, em termos percentuais, o sector mais importante entre os 17 ramos profissionais da Academia.

O discurso de agradecimento de Phoenix foi um momento particularmente revelador, até pela ironia que envolveu em relação aos seus pares, dessa lógica de união e cumplicidade. A sua expressão exemplar esteve também presente nas palavras de Robert De Niro, ao receber um prémio de carreira, entregue por Leonardo DiCaprio.

Entretanto, a consolidação do favoritismo de “1917” na categoria de melhor filme de 2019 envolve um paradoxo que importa destacar. Por um lado, trata-se de uma manifestação invulgar do poder tecnológico do cinema mais industrial — a sua narrativa em continuidade temporal (como se tudo fosse filmado numa única “take”) tem sido muito comentada, e muito justamente, pelos desafios de rodagem que envolveu; por outro lado, por uma vez, a sofisticação desse poder não está ao serviço das rotinas de super-heróis e afins, mas sim de uma história (um episódio da Primeira Guerra Mundial) cujo apelo temático e sensibilidade humanista possuem valores exemplarmente universais.

Daí uma ideia forte que se vai impondo: a mais que provável consagração de “1917” com o Óscar de melhor filme será também uma vitória de um cinema em que, através dos espectaculares recursos de produção, é ainda o factor humano que prevalece.

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