Cultura

Sam Mendes: do teatro para o cinema

Sam Mendes e Daniel Craig durante a rodagem de "Skyfall"

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

A trajectória cinematográfica de Sam Mendes, realizador de “1917”, começou há mais de vinte anos, com “Beleza Americana”. Antes, construíra uma importa carreira nos palcos do teatro inglês.

Depois dos prémios atribuídos pela associações de produtores e realizadores americanos a “1917” — melhor filme e melhor realizador, para Sam Mendes —, mesmo não esquecendo as surpresas que pontuam a história dos Óscares, parece claro que a épica evocação da Primeira Guerra Mundial lidera a corrida para os Óscares da Academia de Hollywood (9 de fevereiro). Por isso mesmo, vale a pena recordar que a trajectória de Sam Mendes está longe de se esgotar no rótulo aplicado nos posters de “1917”. A saber: o realizador de “Skyfall”.

É verdade, Sam Mendes realizou, não um, mas dois filmes de James Bond: “Skyfall”, precisamente, em 2012, e “Spectre”, três anos mais tarde. São, por certo, dois dos mais vibrantes títulos da idade moderna do Agente Secreto 007, mas não bastam para dar conta do talento multifacetado desse realizador que, afinal, começou no teatro.

Nascido em Reading, em 1965, uma cidade do sudeste da Inglaterra, ainda não tinha 30 anos quando integrou a Royal Shakespeare Company. No ano de 1990, assumiu um desafio decisivo na sua trajectória criativa: como director artístico do Donmar Warehouse, um teatro/estúdio londrino, na zona de Covent Garden, desenvolveu um notável trabalho de diversificação e experimentação que incluiu várias peças com a sua assinatura. Entre as suas encenações mais célebres incluem-se “Cabaret” (John Kander/Fred Ebb), “Oliver!” (Lionel Bart) e “Company” (Stephen Sondheim).

Quer isto dizer que, em 1999, quando se estreou na realização cinematográfica, Sam Mendes estava longe de ser um principiante. Possuía, antes de tudo o mais, uma sofisticada capacidade de direcção de actores, desde logo bem patente na sua primeira longa-metragem, “Beleza Americana”, com um elenco que incluía Annette Bening, Kevin Spacey, Thora Birch, Wes Bentley e Chris Cooper [trailer].

Como se costuma dizer, o resto é historia… “Beleza Americana”, uma visão tão subtil quanto sarcástica do “American Way of Life”, arrebatou cinco Óscares, incluindo melhor realização e melhor filme. Seguiu-se “Caminho para Perdição” (2002), adaptação de uma novela gráfica que ficaria como o derradeiro papel de Paul Newman em cinema (daria voz, em 2006, a uma personagem do desenho animado “Carros”) e “Máquina Zero” (2005), desencantado retrato da Guerra do Golfo, com Jake Gyllenhaal e Jamie Foxx nos papéis centrais.

Antes dos filmes de James Bond, Sam Mendes assinaria mais dois títulos, infelizmente pouco divulgados. O primeiro, “Revolutionary Road” (2008), adaptado do romance homónimo de Richard Yates, é uma prodigiosa variação sobre o melodrama clássico, contando com o par de “Titanic”: Leonardo DiCaprio/Kate Winslet. O segundo, “Um Lugar para Viver” (2009), recupera um certo tom de pequena produção independente para fazer o retrato de um casal que espera o primeiro filho.

Curiosamente, em “Beleza Americana” e “1917” encontramos a marca do mesmo estúdio produtor, DreamWorks, de que Steven Spielberg foi um dos fundadores e continua a ser uma das personalidades fundamentais. Em boa verdade, desde a sua entrada no mundo do cinema, Sam Mendes mantém-se ligado às forças mais inovadoras de Hollywood.