Cultura

Spielberg “abandona” Indiana Jones

Cartaz de "Os Salteadores da Arca Perdida" — memórias de 1981

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Notícias recentes indicam como altamente provável a produção de um quinto título das aventuras de Indiana Jones, ainda e sempre encarnado por Harrison Ford. A novidade é a ausência de Steven Spielberg.

Foi num tempo cinematograficamente bem diferente: no Verão de 1981, surgia “Os Salteadores da Arca Perdida” [título original: “Raiders of the Lost Ark”]. Os cartazes prometiam um novo conceito de aventura com assinatura dos criadores de “Tubarão” (1975) e “A Guerra das Estrelas” (1977). Ou seja, respectivamente: Steven Spielberg e George Lucas. Assim era, de facto: Lucas tinha inventado a personagem de um arqueólogo aventureiro, Indiana Jones de seu nome, e Spielberg encarregou-se de realizar o seu primeiro filme. Vale a pena rever o trailer original.

Como se costuma dizer: o resto é história… Resumindo: foram feitos mais três filmes, sempre com Harrison Ford a encarnar o herói, o último dos quais, “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, surgiu em 2008. Desde então, e apesar de esse quarto episódio ter sido uma desilusão para quase toda a gente, muito se tem falado da possibilidade de um quinto título.

Pois bem, Lucas está fora da jogada, uma vez que a sua empresa Lucasfilm, detentora dos direitos das aventuras de Indiana Jones, foi adquirida pelo império Disney em 2012. Quanto a Harrison Ford, tem declarado repetidas vezes que continua disponível para representar o seu, inevitavelmente envelhecido, arqueólogo.

Entretanto, há poucos dias, Spielberg veio dar conta do seu “abandono” — enquanto produtor, poderá estar ligado a um possível “Indy 5” (título de trabalho), mas já não assumirá as responsabilidades de realização. Mais ainda: segundo o “Variety”, James Mangold está em conversações com a Disney para ocupar o lugar de Spielberg.

Será Mangold uma personalidade interessante para fazer renascer uma das mais sedutoras (e também mais rentáveis) “franchises” da história dos filmes? Enfim, o mínimo que se pode dizer é que versatildade não lhe falta. Na sua filmografia, encontramos contrastes que envolvem uma biografia de Johnny Cash, “Walk the Line” (2005), uma história de mutantes, “Logan” (2017), e mais recentemente o brilhante “Le Mans ’66: o Duelo” (2019), evocando os bastidores de uma lendária edição das 24 Horas de Le Mans.

Uma coisa é certa: Spielberg distancia-se, assim, de um universo que, de um maneira ou de outra, consolidou a popularidade do seu nome perante espectadores de todo o mundo (mais do que muitos actores vedetas). Talvez que a fraqueza artística de “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” o tenha levado a reconhecer o erro de tentar “aproximar” o universo de Indiana Jones das convenções dos super-heróis…

Na verdade, para já, Spielberg está a trabalhar na pós-produção de algo bem diferente: “West Side Story”, nova versão do clássico musical de 1961, vai chegar aos ecrãs de todo o mundo em meados de dezembro… E não parece arriscado supor que será um dos títulos em destaque na corrida aos Óscares a atribuir em 2021.