Cultura

O documentarismo e a sua verdade

Rodagem de "9/11" — à esquerda da imagem: James Hanlon, Jules Naudet e Gédéon Naudet

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Recentemente lançado nas salas portuguesas, “Para Sama” é um extraordinário exemplo dos poderes do olhar documental — a evocação de um filme sobre os atentados do 11 de setembro pode servir de contraponto e complemento.

Digamo-lo com todas as letras: “Para Sama”, o filme em que a jornalista Waad Al-Kateab regista a experiência da sua família na guerra da Síria, durante o cerco da cidade de Alepo, é um dos mais espantosos documentários dos últimos anos. Dedicando o filme à sua filha — Sama nasceu em 2015 no hospital de Alepo dirigido pelo marido de Al-Kateab —, a cineasta criou um espantoso objecto audiovisual que possui a vibração de uma genuína reportagem e a grandeza de uma imensa epopeia de sobrevivência.

Ao descobrir “Para Sama”, não pude deixar de pensar que são raros exemplos como este em que o cinema nasce, não apenas do facto de haver uma câmara a acompanhar determinados acontecimentos, mas também da necessidade (que é também uma forma de urgência) de lidar com a dimensão totalmente inesperada e, mais do que isso, ameaçadora, desses acontecimentos.

Lembrei-me de um caso que vale a pena evocar. E tanto mais quanto, estranhamente, continua a ser um filme com muito pouca divulgação, quer nos circuitos específicos de cinema, quer no espaço televisivo e no mercado do DVD. Chama-se “9/11” e, como o título indica, centra-se nos ataques terroristas às Torres Gémeas do World Trade Center, de Nova Iorque, a 11 de Setembro de 2001 — nele encontramos um dos poucos registos conhecidos que mostra o impacto do primeiro avião contra a Torre Norte.

Escusado será dizer que “9/11” não é um filme que tenha nascido como um projecto “sobre” os atentados. Acontece que, em agosto/setembro de 2001, os irmãos franceses Jules e Gédéon Naudet, com a colaboração de James Hanlon, cineasta, ex-bombeiro, estavam a rodar aquilo que seria um documentário (para a CBS) sobre a formação de um novo bombeiro num quartel de Nova Iorque — e na manhã do dia 11 filmavam a actividade desse bombeiro, integrado num grupo que verificava uma possível fuga de gás numa rua nas imediações do World Trade Center…

Subitamente inseridos no dramatismo dos acontecimentos, os realizadores foram compelidos a reagir, acabando por registar impressionantes imagens ainda do interior do World Trade Center (das poucas que existem). Sendo uma perturbante amostragem do pânico vivido, “9/11” acaba por ser também um testemunho invulgar do poder vital de uma câmara (de cinema ou televisão). Há um dossier da CNN sobre o filme cujo título resume exemplarmente a vibração da verdade que as imagens (e os sons) podem conter — chama-se “O Dia Sem Fim”. Como disse Gédéon Naudet, trata-se de uma história de “resistência, sobrevivência, coragem e amor.”