Cultura

Festival de Cannes foi adiado: e agora?… 

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

A organização do Festival de Cannes adiou a edição deste ano, deixando em aberto a hipótese da sua concretização em junho/julho… Aconteça o que acontecer, o espaço do cinema, da produção à difusão, está já a experimentar os efeitos do coronavírus.

A notícia era esperada: na quinta-feira, o Festival de Cannes adiou a sua 73ª edição, agendada para começar a 12 de maio, terminando no dia 24. O dramatismo da conjuntura gerada pela pandemia do coronavírus tornava cada vez mais utópica a concretização de um certame que atrai cerca de 60.000 visitantes diários. Isto sem esquecer, claro, as medidas de contenção, drásticas e sem excepções, que têm vindo a ser tomadas pelo governo francês, em particular em relação aos grandes eventos públicos.

Antes, o certame continuava a apontar 16 de abril como data de realização da conferência de imprensa que, tradicionalmente, serve para divulgar os títulos da selecção oficial. E não será arriscado supor que, sendo Cannes um festival de revelação de filmes (absolutamente) inéditos, a organização deve ter sido confrontada com a dificuldade, para não dizer impossibilidade, de acabamento de muitas produções também afectadas.

Curiosamente, havia já um filme anunciado para a zona dos Clássicos, uma das secções que mais tem crescido, em quantidade e qualidade, nos últimos anos. Assim, assinalando os seus 20 anos, In the Mood for Love (entre nós intitulado “Disponível para Amar”), de Wong Kar-wai, seria projectado, na presença do realizador, em cópia restaurada em 4K. Mais ainda: essa apresentação serviria de antecipação do relançamento do filme nas salas escuras de França e muitos outros países.

"In the Mood for Love": o filme de Wong Kar-wai era uma das escolhas para os Clássicos de Cannes

Agora, fica em aberto a possibilidade de concretizar o festival cerca de um mês e meio mais tarde — o comunicado oficial refere “junho/julho de 2020”. Convenhamos que será necessária uma boa dose de optimismo para conceber tal possibilidade. E não apenas pela sua proximidade temporal e os mecanismos de (re)organização que implicaria. Também porque, subitamente, é todo o calendário internacional dos festivais que está abalado.

Lembremos apenas que, depois de Cannes, na segunda metade do ano, se realizam certames tão importantes como os de Locarno, Veneza e Toronto — com início marcado para 5 de agosto, 2 e 10 de setembro, respectivamente. Ora, como é que a própria circulação dos filmes se vai definir? Haverá títulos suficientes para “alimentar” as programações de certames tão amplos? E será que os profissionais do cinema — actores, realizadores, etc. — estarão disponíveis para se deslocarem e participarem em eventos desta dimensão?

São muitas dúvidas e poucas ou nenhumas certezas. Os próximos meses serão marcados por muitas movimentações (e novos arranjos) na vida dos filmes e, em particular, nas suas formas de difusão. Da identidade cultural do cinema às suas bases económicas, está tudo em jogo.