Cultura

"Pretty Woman": memória amarga e doce

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Com Richard Gere e Julie Roberts, sob a direcção de Garry Marshall, a comédia romântica “Pretty Woman” há muito pertence ao imaginário popular da história de Hollywood — a sua estreia ocorreu há trinta anos.

A memória — e, em particular, a memória cinéfila — vive também dos seus paradoxos amargos e doces. Assim acontece neste cenário de pandemia em que, como bem sabemos, para lá das dramáticas questões de saúde que enfrentamos, todas as actividades ligadas ao(s) espectáculo(s) estão a repensar os seus modos de produção e funcionamento.

Exemplo eloquente dessa memória poderá ser a efeméride que nos traz esta data de 23 de março: foi neste dia, corria o ano de 1990, que chegou às salas escuras um filme chamado Pretty Woman — faz hoje 30 anos.

Em boa verdade, do filme a indústria não esperaria mais do que a confirmação dessa margem de segurança que uma simples e despretensiosa comédia romântica sempre garantiu, mesmo quando o mercado está dominado por produtos bem diferentes (no ano anterior, por exemplo, o recordista de popularidade tinha sido “Indiana Jones e a Última Cruzada”). A história do homem de negócios que se apaixona pela prostituta que o acompanha nos seus compromissos sociais tinha todos os ingredientes emocionais de um género marcado pelo trabalho de mestres como George Cukor ou Vincente Minnelli, género que Hollywood sempre cultivou como um dos seus trunfos mais seguros e também mais sofisticados.

Digamos, para simplificar, que ninguém podia prever o impacto de “Pretty Woman” (entre nós lançado com o subtítulo “Um Sonho de Mulher”). Nem mesmo tendo em conta que no papel masculino surgia Richard Gere, uma das grandes estrelas da época, com uma imagem consolidada através de títulos marcantes como “American Gigolo” (1980), de Paul Schrader, e “Oficial e Cavalheiro” (1982), de Taylor Hackford.

Numa certo sentido (isto é, no plano estritamente comercial), o elo mais fraco de “Pretty Woman” parecia ser a protagonista feminina, Julia Roberts. À distância, tal questão quase parecerá absurda, mas é um facto que, apesar de sólidas composições, em papéis secundários, em “Pizza, Amor e Fantasia” (1988), de Donald Petrie, ou “Flores de Aço” (1989), de Herbert Ross, Julia Roberts estava muito longe de ser um nome consolidado no mercado e no imaginário dos espectadores.

Trinta anos depois, sabemos que foi aqui que nasceu uma estrela de nome Julia Roberts. E reconhecemos “Pretty Woman” como um objecto emblemático da cultura popular, sem esquecer que a sua discreta elegância narrativa, e também o seu suave humor, são indissociáveis do talento do realizador, Garry Marshall (1934-2016), um desses talentosos artesãos “anónimos" que encontramos em todas as épocas da história de Hollywood. É caso para dizer: “Pretty Woman” não é um filme que esteja numa sala perto de si… mas há sempre caminhos (digitais) para o encontrar.