Cultura

Filmes em quarentena: "J’Accuse - O Oficial e o Espião"

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Com o filme “J’Accuse - O Oficial e o Espião”, Roman Polanski renova o seu gosto pela abordagem de dramas históricos. Trata-se, neste caso, de evocar o célebre “caso Dreyfus”, em torno de um oficial francês, de origem judaica, injustamente acusado de espionagem.

Estreado nas salas portuguesas em finais do mês de janeiro, “J’Accuse - O Oficial e o Espião”, de Roman Polanski, terá sido um dos títulos que, devido à situação global de pandemia, não pôde ser descoberto por todos os espectadores interessados — é também um dos filmes que, entretanto, já foi disponibilizado online.

Evocando o célebre “caso Dreyfus” — em torno de um oficial francês, Alfred Dreyfus, de origem judaica, que em 1895 foi injustamente acusado de espionagem em favor da Alemanha —, o filme ilustra uma das vertentes mais peculiares, e também mais esquecidas, da obra de Polanski: a dos dramas de “reconstituição histórica”, a que também pertencem “Tess” (1979), inspirado no romance “Tess dos D’Urbervilles”, de Thomas Hardy, e “Oliver Twist” (2005), segundo Charles Dickens.

Agora, na base de “J’Accuse”, está também uma obra literária, de Robert Harris, autor que partilha a autoria do argumento com o próprio Polanski. Com Louis Garrel numa sóbria composição de Dreyfus, a vibração emocional do filme acaba por passar mais pela personagem do coronel Georges Picquresidente francês Félix Faure, publicada a 13 de janeiro de 1898, no jornal “L’Aurore” art, interpretado pelo excelente Jean Dujardin. É ele, afinal, que vai desmontando a teia de insinuações e mentiras que acabaria por ter um momento decisivo de denúncia pública através da carta aberta do escritor Émile Zola ao presidente francês Félix Faure, publicada a 13 de janeiro de 1898, no jornal “L’Aurore” (cujo título era, justamente, J’Accuse…!).

Num tempo de proliferação de aventuras mais ou menos digitais, em cenários mais ou menos virtuais, “J’Accuse” afirma-se como uma vibrante revalorização de um conceito clássico de “drama histórico”. Afinal de contas, há mais mundos para lá das sagas dos super-heróis. E o cinema é também uma arte de preservação de todas as memórias, individuais e colectivas.

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