Cultura

Filmes em quarentena: "O Meu Maior Desejo"

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Hirokazu Kore-eda, por certo o mais internacional dos actuais cineastas japoneses, tem uma filmografia especialmente atenta aos temas da infância e adolescência: “O Meu Maior Desejo” é um belo exemplo do seu sentido dramático e também do seu delicado humor.

Muito se falou do facto de o filme “Parasitas” (2019), do sul-coreano Bong Joon Ho, vencedor da Palma de Ouro em Cannes e do Óscar de melhor filme do ano, ter reforçado a difusão internacional das produções asiáticas. Assim será, sem dúvida. Mas vale a pena recordar que em 2018 o prémio máximo de Cannes foi para um título japonês, “Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões”, de Hirokazu Kore-eda. Mais do que isso: ao longo da última década, Kore-eda tem sido um nome com uma presença regular no mercado global da exibição cinematográfica.

Neste momento, cinco títulos de Kore-eda podem ser vistos ou revistos online. Além do já citado “Shoplifters”, são eles: “O Meu Maior Desejo” (2011), “A Nossa Irmã Mais Nova” (2015), “Depois da Tempestade” (2016) e “O Terceiro Assassinato” (2017) — predominam os dramas familiares, sendo o último uma variação mais ligada às regras do “thriller”.

Vale a pena destacar “O Meu Maior Desejo”, sobretudo pela sua valorização dos temas da infância e adolescência, em boa verdade transversais em toda a filmografia de Kore-eda. O motor da história tem um tempero muito especial de drama e delicado humor: a personagem central, Koichi, 12 anos, tem como “maior desejo” o reencontro com o irmão, já que o divórcio dos pais implicou a sua separação; um belo dia, é levado a acreditar que se conseguir observar o cruzamento de dois comboios de alta velocidade, o seu desejo irá concretizar-se…

Sendo um excelente director de actores, incluindo os mais novos, nunca tratados de forma pitoresca ou paternalista, Kore-eda sabe também pontuar as suas histórias com subtis observações sobre a vida social japonesa e, em particular, a tensão entre a sociedade contemporânea e os valores herdados dos mais velhos. Nesta perspectiva, pode ser considerado um legítimo e muito talentoso herdeiro de Yasujiro Ozu (1903-1963), o autor de clássicos do cinema japonês como “Viagem a Tóquio” (1953) ou “O Gosto do Saké” (1962).

* Filmin: www.filmin.pt