Cultura

Filmes em quarentena: “Adeus, Lenine!”

Daniel Brühl em "Adeus, Lenine!": memórias insólitas dos últimos dias da RDA

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Vencedor do prémio de melhor filme europeu de 2003, “Adeus, Lenine!” evoca a Queda do Muro de Berlim em tom de comédia familiar, ou como a história colectiva acontece através dos contrastes dos destinos individuais.

Directa ou indirectamente, a Queda do Muro de Berlim (9 de novembro de 1989), acontecimento fulcral na história europeia do século XX, está presente em muitos filmes, e nos mais diversos registos narrativos. Um dos exemplos mais desconcertantes, porque em tom de insólita comédia familiar, dá pelo sugestivo título de “Adeus, Lenine!” e pode ser visto ou revisto, tanto em DVD como numa plataforma de “streaming” — foi eleito melhor filme do ano nos prémios da Academia de Cinema Europeu referentes a 2003.

Há uma senhora, carinhosa mãe de família (Katrin Saß), que se distingue por uma militante paixão pelo bloco soviético e, nessa medida, pela vida e pelos valores do seu país: a República Democrática Alemã. Numa altura em que se multiplicam os protestos contra o governo, em outubro de 1989, ela envolve-se numa manifestação, com tal fervor que sofre um ataque cardíaco: entra em coma, para apenas despertar alguns meses mais tarde, isto é, em meados de 1990, quando já não há Muro… Receando que o choque da nova realidade possa fazer perigar a saúde da mãe, o filho (Daniel Brühl, porventura na melhor composição da sua carreira), vai empenhar-se, com a cumplicidade de outros familiares, em ocultar a verdade nua e crua: já não há duas Alemanhas.

Nessa odisseia bizarra, misto de melodrama e burlesco, envolvida pela belíssima banda sonora de Yann Tiersen, tudo pode ser “ameaçador”: desde os noticiários televisivos até ao anúncio da Coca-Cola que foi colocado na fachada do prédio do outro lado da rua. A realização de Wolfgang Becker, também co-autor do argumento, possui a subtileza necessária e suficiente para fazer passar os sinais de uma importante convulsão colectiva sem nunca simplificar os destinos individuais.

Com contagiante humor, pontuado por delicadas emoções, “Adeus, Lenine!” resiste à facilidade de dividir o mundo em personagens “boas” e “más”. Especialmente feliz é a construção da figura da mãe, nunca reduzida a uma presença caricatural, antes apresentada como alguém que vai ser confrontada com um enorme desafio existencial: encontrar um novo equilíbrio entre as ilusões individuais e o curso irreversível da história social e política.

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