Cultura

O cinema maior que a vida

"Lawrence da Arábia" (1962): ver um filme numa sala escura é uma experiência insubstituível

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

São muitas, e muito interessantes, as alternativas de difusão de filmes que podemos encontrar online. Ao mesmo tempo, importa não esquecer o valor essencial da experiência do cinema vivida (e partilhada) numa sala escura.

É bem verdade que a multiplicação de alternativas para o consumo de filmes online resulta de uma dramática conjuntura da saúde pública. Mas não é menos verdade que essas alternativas, certamente com contrastes e alguns desequilíbrios, possuem um importante valor pedagógico: com elas, e através delas, mesmo os espectadores mais distraídos têm a possibilidade de conhecer um pouco (mais) da pluralidade da própria história do cinema — a cinefilia começa no interesse por essa pluralidade.

Há até exemplos de instituições de conservação do património cinematográfico — visitem-se, por exemplo, os sites das Cinematecas de França e Portugal — que estão a disponibilizar, gratuitamente, muitos títulos fundamentais das cinematografias dos respectivos países.

Entretanto, há poucos dias, foi anunciado um evento virtual sem precedentes. Chama-se “We Are One” e define-se por um esclarecedor subtítulo: “Um festival de cinema global”. Com coordenação do Festival de Tribeca, cerca de duas dezenas de certames de todo o mundo — incluindo os pesos pesados da Europa: Cannes, Veneza e Berlim — vão organizar uma mostra aberta de filmes no YouTube, ao longo de dez dias (29 de maio a 7 de junho).

Importa divulgar e enaltecer tais iniciativas. Afinal de contas, são a prova muito real de que o cinema é um fenómeno realmente universal que, como se prova, vive (e sobrevive) de uma constante diversificação da sua difusão, seja por razões tecnológicas, seja para superar as limitações da nossa actual existência social.

Dito isto, creio que importa também não deixar que o óbvio seja menosprezado, muito menos esquecido. Claro que as possibilidades de difusão dos filmes na Net são imensas e, em muitos aspectos, fascinantes. Seja como for, o tempo que estamos a viver pode e deve implicar uma revalorização do cinema como acontecimento indissociável das salas escuras, da grandeza dos seus ecrãs.

De uma obra-prima do expressionismo alemão como “Metropolis” (1927) à monumentalidade das superproduções da década de 60 como “Lawrence da Arábia” (1962) , passando por “Serenata à Chuva” (1952) e outros clássicos do musical, a experiência — social e espectacular — de uma sala escura continua a ser insubstituível. É aí que o cinema consegue cumprir a sua vocação primitiva e primordial de ser, realmente, maior que a vida.

E não é preciso recuarmos à idade de ouro dos clássicos para o lembrar. Citemos apenas um exemplo, através do respectivo trailer, de um grande espectáculo lançado há precisamente vinte anos (em maio de 2000) nas salas de todo o mundo — chama-se “Gladiador”, tem Russell Crowe naquela que continua a ser a sua composição mais popular, e foi realizado por Ridley Scott.

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