Cultura

O conto final

Facebook Sérgio Sant'Anna

Iryna Shev

Iryna Shev

Jornalista

O escritor brasileiro Sérgio Sant'Anna morreu este domingo, uma semana depois de ter sido internado com sintomas da Covid-19.

"Me embriaga não passar de um ser ínfimo no cosmos", escreveu Sérgio Sant'Anna, num conto que publicou no início deste mês e onde descreve a contemplação de uma mulher por um homem confinado ao seu apartamento. Um conto que mostra como a imaginação nos faz inventar a história de uma pessoa desconhecida, como cria o seu riso, o seu cheiro e o toque da sua pele. Como nos pode fazer ter ciúmes e criar uma paixão cega com o dom da observação e o poder de uma janela.

Chama-se "A Dama de Branco" e, respeitando a vontade do autor, deve ser lido ao som de "Gnossiennes", do francês Erik Satie. Um último conto num mundo de histórias que enriquecem não só o Brasil, mas todos os que leem, falam e escrevem em português.

Sérgio Sant'Anna morreu este domingo no Rio de Janeiro, a mesma cidade que o viu nascer. Tinha 78 anos e estava internado desde o dia 3 de maio no hospital Quinta D'Or, em São Cristóvão, com sintomas do novo coronavírus. A tal doença pandémica que Jair Bolsonaro e o seu Governo menosprezam, mas que aos poucos nos vai tirando aqueles que admiramos e que tornam as nossas vidas mais fáceis por transformarem sentimentos que nem sabíamos ter em palavras, em música ou noutro tipo de arte.

Publicou poesia, peças de teatro, novelas e romances, mas ficou sobretudo conhecido pelo seu extenso trabalho no mundo dos contos. Preferindo uma narrativa curta e variada para desafiar quem o lê e enriquecendo os textos com outras expressões artísticas como a música ou as artes plásticas.

Em outubro passado tinha completado 50 anos de uma carreira que começou em 1969 com o livro "O Sobrevivente" e seguiu pelas décadas fora com trabalhos como "O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro", "O homem-mulher", "O livro de Praga", "Um crime delicado" ou "O voo da madrugada".

Foi jornalista e professor universitário, mas desde os anos 1990 que vivia dedicado à literatura, deixando-nos um longo legado de um homem que confessou que para ele, "a morte não passa de uma obsessão."