Cultura

Filmes em quarentena: “Eis o Admirável Mundo em Rede”

"Eis o Admirável Mundo em Rede": como está e para onde vai a identidade humana?

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Disponível numa plataforma de streaming, “Eis o Admirável Mundo em Rede”, de Werner Herzog, propõe uma sugestiva viagem pelos labirintos da Internet — com especial rigor científico e também um contagiante humor

O título vem mesmo a propósito: “Eis o Admirável Mundo em Rede” (2016) é um documentário sobre este nosso tempo de infinitos circuitos de comunicação e os seus efeitos em todas as áreas de comportamento, da investigação científica à vida privada. E não deixa de ser irónico que, agora, precisamente, só o possamos descobrir… em rede.

Estamos perante um dos mais sugestivos trabalhos documentais do alemão Werner Herzog. É bem certo que o seu prestígio está sobretudo associado a títulos de ficção, quase sempre cruzando a aventura com ambiências surreais — lembremos os exemplos mais célebres de “Aguirre, a Cólera de Deus” (1972), “Nosferatu, o Fantasma da Noite” (1979) ou “Fitzcarraldo” (1982). De qualquer modo, Herzog tem mantido uma importante actividade paralela na área documental, a ponto de o seu “Encounters at the End of the World” (2007), sobre a Antártida, lhe ter valido uma nomeação para o Óscar da respectiva categoria.

“Eis o Admirável Mundo em Rede” possui a agilidade, e também a sedução, de um bloco-notas sobre os prós e contras da Internet, ainda que evitando qualquer visão maniqueísta, muito menos moralista. Falando com empreendedores das novas tecnologias (incluindo Elon Musk, criador do projecto SpaceX, para o comércio espacial) ou investigadores universitários (por exemplo, o engenheiro de computação Leonard Kleinrock), Herzog não glorifica nem demoniza as nossas experiências virtuais — este é, afinal, um filme movido por uma salutar curiosidade sobre a imensa reconversão tecnológica de todas as relações humanas.

Daí uma proeza pouco habitual neste tipo de produções. Assim, “Eis o Admirável Mundo em Rede” oferece um leque de informações muito concisas sobre a evolução científica, tratando-as de forma simples e didáctica, acessíveis a um leigo; ao mesmo tempo, Herzog sabe apresentar tudo isso com um espírito contagiante de distanciamento e, por vezes, delicioso humor. É caso para dizer que se trata de nos aventurarmos nos labirintos do universo virtual, mas sem nunca perdermos a ligação à terra.

Filmin