Cultura

60 anos de "Nova Vaga"

Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg nos Campos Elísios — a Nova Vaga passou por aqui

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Foi na Primavera de 1960 que se estreou nas salas francesas a primeira longa-metragem de Jean-Luc Godard: “O Acossado”, com Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg, ficou na história como uma bandeira da modernidade cinematográfica.

Filmados por Jean-Luc Godard, a descerem os Campos Elísios, Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg — ele em pose de galã descontraído, ela a própria elegância sem afectação (a vender o “New York Herald Tribune”) — definem uma imagem simbólica da Nova Vaga francesa. Mais do que isso: o filme em que assim surgiam, “O Acossado” (título original: “À Bout de Souffle”), um policial de desencantado romantismo, entrou para a história como bandeira da modernidade cinematográfica.

Estamos agora perante uma curiosa confluência de efemérides que, além do mais, nos permite recordar e sublinhar a energia de um filme realmente incontornável (disponível no mercado do DVD). E tanto mais quanto a sua criatividade marcou várias gerações, dos cineastas do Cinema Novo português a Quentin Tarantino.

Foi há 60 anos, na Primavera de 1960, que ocorreu em França a estreia de “O Acossado”. Assim se consolidava a afirmação da Nova Vaga, movimento que tinha tido a sua primeira grande exposição pública cerca de um ano antes, no Festival de Cannes, quando François Truffaut aí arrebatou o prémio de realização com a sua comovente crónica da infância, “Os 400 Golpes” (sem esquecer que Truffaut está ligado ao desenvolvimento do argumento de “O Acossado”).

Mais do que um movimento experimental, a Nova Vaga existia como um conjunto de autores (quase todos com experiência na crítica de cinema) apostados em recolher e transfigurar as heranças dos grandes mestres clássicos, abordando temas do seu próprio presente. Em tal processo, 1959 tinha sido um ano decisivo através das estreias de “Hiroshima, Meu Amor”, de Alain Resnais, e “Um Vinho Difícil”, de Claude Chabrol, além do já citado “Os 400 Golpes”.

Curiosamente, “O Acossado” ficou também como sintoma de algumas transformações na dinâmica cultural portuguesa. Assim, no começo dos anos 70, com o Estado Novo cada vez mais fragilizado pela continuação da Guerra Colonial, o regime ditatorial tentou dar mostras de alguma abertura, “liberalizando” um pouco o seu sistema de censura, no cinema e não só (recorde-se o teatro de revista da época). Nessa conjuntura, foram sendo estreados alguns títulos marcantes do cinema moderno, incluindo, precisamente, “O Acossado” — foi há 50 anos, em abril de 1970, na sala do Estúdio do cinema Império.

Para a história, vale a pena recordar também que “O Acossado” teria um “remake” produzido em Hollywood, corria o ano de 1983. Com o par Richard Gere/Valérie Kaprisky, foi realizado por Jim McBride com o título “Breathless” (o mesmo dado ao filme de Godard no mercado anglo-saxónico). Não tem o fulgor do original, nem a sua importância histórica. É apenas uma homenagem sincera, plena de energia, com o espírito clássico das pequenas produções de “série B”. Aliás, Godard dedicava o seu “À Bout de Souffle” à Monogram Pictures, precisamente um dos estúdios americanos ligado a muitas dessas produções ao longo das décadas de 1930-50.