Cultura

Para não esquecermos Michel Piccoli

Michel Piccoli em "Habemus Papam" (2011), de Nanni Moretti

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

É impressionante a variedade de personagens e registos dramáticos que podemos encontrar na filmografia de Michel Piccoli: o seu legado artístico persiste como um exemplo de talento e versatilidade.

Num simples exercício de memória, cinéfilo q.b., lembremos algumas personagens emblemáticas:

— o argumentista do filme dentro do filme, em “O Desprezo” (1963), de Jean-Luc Godard, enfrentando o labirinto das suas relações conjugais, ao mesmo tempo que vai partilhando reflexões sobre a “morte do cinema” com o realizador com quem trabalha;

— o gerente de uma loja de instrumentos musicais, em “As Donzelas de Rochefort” (1967), de Jacques Demy, vivendo as memórias convulsivas de uma paixão que o tempo não apagou;

— o homem maduro de “A Chamada” (1968), de Alain Cavalier, julgando conhecer os meandros de uma pulsão amorosa que, em boa verdade, está longe de dominar;

— o arquitecto de “As Coisas da Vida” (1970), de Claude Sautet, que na sequência de um brutal acidente de automóvel rememora, ponto por ponto, a sua história sentimental;

— o pintor de “A Bela Impertinente” (1991), de Jacques Rivette, que vai desenvolvendo uma relação com a sua modelo que o conduz a uma profunda reavaliação do próprio gesto artístico;

— o actor de “Vou para Casa” (2001), de Manoel de Oliveira, confrontado com a notícia da morte dos seus familiares mais próximos, decidindo que é o momento de parar de representar;

— enfim, o Papa de “Habemus Papam” (2011), de Nanni Moretti, a partilhar as inquietações da sua condição de líder dos católicos com um sereno e muito empenhado terapeuta.

A pergunta de algibeira é esta: qual o ponto comum a estas personagens? E a resposta envolve, como é óbvio, o reconhecimento de um imenso talento: são todas elas interpretações de Michel Piccoli (1925-2020), actor que, de facto, sem que isso seja uma frase de circunstância, nos deixa um legado artístico tão invulgar pela sua dimensão (mais de duas centenas de títulos) como pela sua variedade interna.

Certamente não por acaso, Piccoli foi também — aliás, foi sempre, desde o começo da sua carreira, em meados da década de 1940 — um actor de teatro, mantendo um calculado ziguezague entre o palco e os ecrãs (cinematográfico e televisivo). Havia nele essa ambivalência estrutural que, se não é obrigatória num actor, pode ser decisiva para o desenvolvimento do seu talento. Dito de outro modo: ele foi um intérprete de um rigor cerebral que nunca menosprezou, antes pelo contrário, as energias que podem provir do instinto.

Mais do que nunca, creio que importa não esquecer o valor simbólico de tão admirável carreira. Sem nunca se deixar “encerrar” num modelo único de personagem, Piccoli distinguiu-se como um profissional que celebrou as infinitas possibilidades da representação, invenção ou recriação dos comportamentos humanos. Vamos continuar a vê-lo, e revê-lo, como exemplo de uma entrega total às nuances da sua arte.