Cultura

Filmes em quarentena: "Os Fugitivos de Alcatraz"

Clint Eastwood em "Os Fugitivos de Alcatraz": memórias da prisão da Baía de São Francisco

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

O realizador Don Siegel foi um dos mestres de Clint Eastwood. Entre as suas várias colaborações, “Os Fugitivos de Alcatraz” será o filme mais perfeito: um retrato íntimo de uma fuga da célebre prisão da Baía de São Francisco.

A partir do momento em que foi consagrado nos Óscares — em 1993, com o “Imperdoável” —, Clint Eastwood passou a ser visto como um autor completo. E por muito boas razões. O certo é que, sobretudo nas primeiras décadas da sua filmografia, há várias colaborações com outros cineastas que merecem não ser esquecidas.

“Os Fugitivos de Alcatraz” é um belo exemplo, tanto mais simbólico quanto Eastwood sempre reconheceu no seu realizador, Don Siegel (1912-1991), um dos profissionais de Hollywood que mais o influenciaram. Siegel dirigiu Eastwood no célebre “Dirty Harry/A Fúria da Razão” (1971), um dos filmes que, para o melhor e para o pior, mais contribuiram para definir a “imagem de marca” do actor; com data de 1979, “Os Fugitivos de Alcatraz” foi a quinta e última vez que trabalharam juntos.

Nessa época, impulsionado por sucessos como “Tubarão” (1975) e “A Guerra das Estrelas” (1977), respectivamente de Steven Spielberg e George Lucas, o cinema dos EUA vivia uma radical transformação dos seus conceitos de produção. Nesse contexto, “Os Fugitivos de Alcatraz” era um objecto algo fora de moda, recuperando o espírito dramático das pequenas produções de “série B” em que, justamente, Siegel se formara.

Eastwood interpreta a figura verídica de Frank Morris, recluso da prisão da ilha de Alcatraz, na baía de São Francisco, que organizou uma lendária tentativa de fuga — foi em 1962, cerca de um ano antes do encerramento oficial daquele estabelecimento prisional. Mais do que a acção física, Siegel privilegia todos os detalhes de planificação da fuga, num registo que vai gerando uma estranha intimidade com Morris e os prisioneiros seus cúmplices. Sem cenários digitais (estava-se longe desse tempo…), a rodagem decorreu, em parte, na própria prisão de Alcatraz, o que lhe confere um realismo cenográfico difícil de superar.

Produzido pela Malpaso, empresa de Eastwood, o filme baralhou a velha amizade entre actor e realizador: rezam as crónicas que Siegel e Eastwood se desentenderam sobre a gestão de direitos do filme. O certo é que, discretamente, a passagem do tempo conferiu a “Os Fugitivos de Alcatraz” o estatuto de um genuíno clássico. Já agora, refira-se que entre os seus fãs está um tal Quentin Tarantino.

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