Cultura

Filmes em quarentena: “As Aventuras de Robin dos Bosques”

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Errol Flynn foi uma das grandes estrelas do advento do cinema sonoro e também da era dourada do Technicolor: a sua interpretação da personagem mítica de Robin dos Bosques, em 1938, constitui um símbolo exemplar de uma época gloriosa de Hollywood.

Sem ofensa para os fãs de Kevin Costner e Russell Crowe, mas as respectivas interpretações da lendária personagem de Robin dos Bosques (em 1991 e 2010, dirigidos por Kevin Reynolds e Ridley Scott) estão longe de ser as versões historicamente mais importantes na abordagem do herói da Floresta de Sherwood. Em boa verdade, é possível satisfazer todos os gostos quando consultamos a genealogia cinematográfica (e também televisiva) da personagem de Sir Robin of Locksley, sempre fiel ao seu rei Ricardo Coração de Leão. Seja como for, neste domínio, As Aventuras de Robin dos Bosques, título produzido em 1938, continua a ser o clássico dos clássicos.

Estamos perante uma das performances mais populares daquele que foi uma das grandes estrelas das duas primeiras décadas do cinema sonoro: Errol Flynn (1909-1959). Aliás, vale a pena recordar que a sua mitologia pessoal se confunde por inteiro com o espírito de aventura cultivado por Hollywood ao longo dos anos 30. Filmes como “O Capitão Blood” (1935) ou “A Carga da Brigada Ligeira” (1936), ambos realizados por Michael Curtiz, consagraram a sua imagem de herói “maior que a vida”.

Em “As Aventuras de Robin dos Bosques”, Curtiz voltou a assumir a realização, desta vez partilhada com William Keighley, outro especialista nas tarefas da grande aventura. Com Olivia de Havilland no papel de Marian e Basil Rathbone a assumir a figura do malévolo Sir Guy, usurpador do trono de Ricardo, o filme distingue-se por uma elegância de encenação em que o essencial já não é a crónica histórica, mas sim uma apoteótica renovação da fábula sobre a luta do Bem contra o Mal.

Nesta perspectiva, “As Aventuras de Robin dos Bosques” constitui também uma proeza invulgar no tratamento da cor, mais concretamente na utilização do Technicolor. Não que o preto e branco estivesse a desaparecer — longe disso. O certo é que se vivia o tempo de descoberta da exuberância do Technicolor, confirmado no ano seguinte, 1939, através de dois títulos clássicos, porventura ainda mais célebres: “O Feiticeiro de Oz” e “E Tudo o Vento Levou”, ambos assinados por Victor Fleming. Curtiz, por seu lado, regressaria várias vezes ao preto e branco, nomeadamente em 1942, para filmar “Casablanca”.

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