Cultura

Filmes em quarentena: "Tucker: o Homem e o seu Sonho"

Jeff Bridges no papel de Preston Tucker: o homem que sonhou o automóvel do futuro

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

É, por certo, um dos títulos menos conhecidos da filmografia de Francis Ford Coppola: “Tucker: o Homem e o seu Sonho” faz o retrato empolgante de Preston Tucker, figura revolucionária da indústria automóvel de Detroit.

Todos conhecemos títulos como “O Padrinho” (1972) e “Apocalypse Now” (1979), neles identificando o génio criativo de um grande senhor do cinema chamado Francis Ford Coppola. Sem querer duvidar da cinefilia do leitor, atrevo-me a perguntar se, apesar de conhecer tais filmes, alguma vez teve a oportunidade de ver “Tucker: o Homem e o seu Sonho” (1988)… Em qualquer caso, o filme está disponível numa plataforma de streaming e o menos que se pode dizer é que, sendo um dos trabalhos mais ambiciosos de Coppola, acabou por ser também um dos maiores desastres financeiros da sua carreira.

Observador apaixonado do “Sonho Americano”, das suas proezas e contradições, Coppola terá querido contar, neste caso, uma história exuberante e positiva, ou melhor, centrada numa personagem fascinante, realmente “maior que a vida”. “Tucker: o Homem e o seu Sonho” é o retrato de Preston Tucker (1903-1956), engenheiro da região de Detroit que, no pós-Segunda Guerra Mundial, quis construir um automóvel que, pelas suas inovações técnicas, mas também pela sua sofisticação estética, fosse genuinamente revolucionário.

Digamos, para simplificar, que nem tudo correu da forma mais harmoniosa… Para usarmos a sugestão do título, podemos dizer que o sonho de Tucker se viu confrontado com muitos obstáculos legais e burocráticos que tornaram a sua principal proeza — o lendário modelo “Tucker 48” (datado de 1948, precisamente) — uma raridade. O que, entenda-se, não impediu que muitas das suas inovações fossem, a pouco e pouco, integradas como normas da indústria. Só se produziram cinco dezenas de automóveis “Tucker 48”, dos quais sobreviveram 46, um deles propriedade do próprio Coppola.

Com o notável Jeff Bridges no papel de Tucker, esta é uma crónica social e política de uma época de muitas transformações, sem deixar de ser também o drama de uma família. Por isso mesmo, importa destacar, no papel de Vera Tucker, a composição de Joan Allen num elenco em que encontramos ainda Frederic Forrest e Martin Landau (nomeado para o Oscar de actor secundário). Em resumo: na árvore genealógica da América de Coppola, “Tucker: o Homem e o seu Sonho” está longe de ser um momento secundário — e merece ser descoberto ou redescoberto.

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