Cultura

Sessão de cinema: "Amazing Grace"

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Em 1972, Aretha Franklin registou o seu lendário álbum “Amazing Grace” numa igreja de Los Angeles. As gravações foram filmadas por Sydney Pollack… mas os resultados só foram conhecidos quase meio século mais tarde.

Para lá da tradição clássica do musical de Hollywood, sabemos que o cinema sempre manteve uma relação plural e criativa com a música popular — talvez desde que Richard Lester filmou os Beatles em “A Hard Day’s Night” (1964).

Ainda assim, não haverá muitos casos como “Amazing Grace”, título lançado em 2018 sobre a gravação do álbum homónimo de Aretha Franklin, com data de 1972, uma referência incontornável na história do gospel. Porquê em 2018 um documentário sobre algo que ocorreu 46 anos antes? Pois bem, porque o material filmado andou, por assim dizer, à deriva…

Foi a Warner Bros que contratou o realizador Sydney Pollack para filmar o registo de “Amazing Grace”, acontecimento tanto mais singular e vibrante quanto a gravação teve como cenário uma igreja de Los Angeles, com público a assistir. Convém recordar que, na altura, Pollack era já um nome conhecido e reconhecido, tendo dirigido, por exemplo, “Os Cavalos Também se Abatem” (1969) e “As Brancas Montanhas da Morte” (1972). Mas algo correu mal… e o som do material filmado ficou com sérios problemas de sincronização.

Pollack partiu para outros projectos e o documentário ficou em suspenso, tanto mais que surgiram também alguns problemas legais relacionados com direitos autorais. Na prática, o filme só viria a ser concluído por Alan Elliott em 2018, cerca de dez anos depois da morte de Pollack (Aretha Franklin faleceu nesse mesmo ano).

Uma coisa é certa: “Amazing Grace” prevaleceu como um exemplo invulgar de comunhão entre os meios do cinema e a performance musical. Para mais com aquele tão peculiar grão das imagens, típico da película de 16 mm usada pelas quatro câmaras que Pollack teve à sua disposição. E não será preciso acrescentar que a voz de Aretha Franklin é mesmo um prodígio intemporal.

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