Cultura

Sessão de cinema: "Retrato da Rapariga em Chamas"

Adèle Haenel e Noémie Merlant: uma história romanesca tendo como cenário a Bretanha do século XVIII

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Premiado na edição de 2019 do Festival de Cannes, o filme de Céline Sciamma constitui um belo exemplo de uma produção francesa ligada à herança dos mestres clássicos.

Distinguido no Festival de Cannes de 2019 (prémio de melhor argumento), “Retrato da Rapariga em Chamas” é um dos filmes a simbolizar a reabertura das salas de cinema, depois do confinamento imposto pela pandemia. Estreado a 12 de março, foi um daqueles títulos que quase não chegou a ter vida comercial, reaparecendo agora para encontrar o público que merece.

Estamos perante uma realização de uma das autoras mais originais da produção francesa deste nosso século XXI: Céline Sciamma. Acumulando sempre as tarefas de escrita de argumento — lembremos o caso exemplar de “Maria-Rapaz” (2011) —, Sciamma é uma subtil retratista da sensibilidade feminina, além do mais sabendo “corporizar” a complexidade emocional das suas histórias através de uma rigorosa direcção dos respectivos intérpretes.

Neste caso, Adèle Haenel e Noémie Merlant assumem as personagens centrais, Héloïse e Marianne, respectivamente. São duas jovens cujos destinos se vão cruzar na deslumbrante paisagem da Bretanha, em finais do século XVIII: Héloïse está prometida em casamento a um nobre de Milão, Marianne é contratada para pintar o seu retrato.

Acontece que Héloïse se sente revoltada com o compromisso conjugal que, de facto, foi assumido sem a sua concordância. De tal modo que resiste a posar para Marianne… A tensão que assim se instala acaba por se desenvolver como um processo de mútua revelação afectiva.

Poderá dizer-se que Sciamma assume, assim, a herança romanesca e romântica de um certo cinema francês que passa por mestres clássicos como Jean Renoir e Max Ophüls, ou ainda por François Truffaut, um dos símbolos da Nova Vaga. Consegue fazê-lo sem qualquer atitude copista, antes afirmando a singularidade do seu olhar — os mistérios da paixão amorosa definem, afinal, o ponto de fuga das suas histórias.