Cultura

“Psico” faz 60 anos

Um dos cartazes originais de "Psico" (1960)

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Com Anthony Perkins no papel central, “Psico” é um daqueles filmes que há muito se impôs como um clássico absoluto da história do cinema — a estreia da obra-prima de Alfred Hitchcock ocorreu em Nova Iorque, no dia 16 de Junho de 1960.

A primeira exibição pública de “Psico”, de Alfred Hitchcock, ocorreu em Nova Iorque, no dia 16 de Junho de 1960 — 60 anos depois, o menos que se pode dizer é que, de facto, este é um daqueles filmes que há muito transcendeu quaisquer limitações decorrentes das épocas, dos temas ou das modas.

Para os que gostam de situar os filmes também no seu contexto económico e financeiro, vale a pena recordar que, nesse ano de 1960, “Psico” foi um dos maiores sucessos de bilheteira, surgindo em segundo lugar no Top 10 dos EUA. Em primeiro ficou “Spartacus”, de Stanley Kubrick; “O Apartamento”, de Billy Wilder, que viria a arrebatar o Oscar de melhor do ano, ocupava a sétima posição.

Por essa altura, Hitchcock era um dos nomes mais poderosos no interior da indústria de Hollywood. A imagem mais ou menos pitoresca de “mestre do suspense”, ainda que fundamentada, está longe de esgotar as suas singularidades: desde logo porque, sobretudo ao longo da década de 50 (desembocando em títulos como “Vertigo” e “Intriga Internacional”), ele foi um dos mais geniais inovadores das narrativas cinematográficas; depois porque a sua afirmação como autor é inseparável da consolidação do seu estatuto de produtor (nessa época, produzia também a série televisiva “Alfred Hitchcock Apresenta”).

Baseada no romance homónimo de Robert Bloch, a história de Norman Bates, o simpático mas inquietante proprietário do Bates Motel, possui uma trágica dimensão universal, colocando em cena uma teia de desejos e fantasmas capaz de ecoar em qualquer contexto em que o filme seja (re)visto. A interpretação de Bates por Anthony Perkins é um prodígio de composição dramática que acabou por ter um efeito perverso na carreira do actor: em muitos casos, ele foi apenas convocado para interpretar “derivações” menores, explícitas ou não, da mesma personagem.

Com um elenco que inclui ainda Janet Leigh, Vera Miles, John Gavin e Martin Balsam, “Psico” resulta, afinal, do trabalho de uma galeria de luxo de artistas e técnicos, incluindo o compositor da música, Bernard Herrmann, e o director de fotografia, John L. Russell. Isto sem esquecer Saul Bass, um dos maiores criadores visuais da história do cinema americano, responsável pelo inesquecível genérico de abertura — vale a pena rever.