Cultura

Sessão de cinema: “O Anjo Exterminador”

Silvia Pinal em "O Anjo Exterminador" (1962): memórias do Buñuel mexicano

D.R.

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Datado de 1962, “O Anjo Exterminador” era conhecido em Portugal, mas nunca tinha sido estreado no circuito comercial — acontece agora, integrado num ciclo de uma dezena de títulos de Luis Buñuel

Eis uma situação insólita: apesar do realizador espanhol Luis Buñuel (1900-1983) ser, obviamente, um mestre clássico bem conhecido dos espectadores portugueses, o seu filme “O Anjo Exterminador” permanecia comercialmente inédito entre nós. Visto na Cinemateca ou em ciclos promovidos por outras entidades, o certo é que nunca tinha tido entrado no circuito de distribuição.

Acontece agora, graças ao ciclo de dez títulos de Buñuel que começou em Lisboa e Porto, estando a circular, para já, por Braga, Coimbra, Figueira da Foz e Setúbal. “O Anjo Exterminador” é um dos filmes em que dirigiu a mexicana Silvia Pinal, numa produção da responsabilidade de Gustavo Alatriste, marido da actriz.

Trata-se de uma produção de 1962. Um ano antes, Buñuel, Pinal e Alatriste tinham colaborado em “Viridiana”, vencedor da Palma de Ouro de Cannes. E se este é um dos filmes em que o cineasta lida mais directamente com os temas do catolicismo, “O Anjo Exterminador” mantém uma relação muito directa com o gosto do absurdo — ou, talvez melhor, do irracional — de “Um Cão Andaluz” (1929) ou “A Idade de Ouro” (1930), obras claramente surrealistas, geradas em colaboração com Salvador Dalí.

Em termos muito simples, “O Anjo Exterminador” é o retrato de um grupo de aristocratas que se reunem numa festa, num palacete, e não conseguem sair… Na altura, o filme foi por muitos interpretado como uma metáfora sobre a decadência dos estratos sociais espanhóis, de maior poder económico, apoiantes da ditadura franquista. É uma hipótese que, por certo, o próprio Buñuel não renegaria. Em qualquer caso, emerge aqui uma componente essencial do seu universo artístico. A saber: uma desencantada visão da condição humana (plena de humor, convém não esquecer), das ilusões e desilusões com que dominamos ou julgamos dominar o mundo.

Escusado será dizer que, na sua elegância simples, sem nada de ostensivo, “O Anjo Exterminador” é a expressão de um olhar que a passagem dos anos não banalizou. Buñuel consegue, afinal, usar uma arte do visível para nos confrontar com a inquietação do invisível.