Cultura

Sessão de cinema: “Matthias & Maxime”

Gabriel d'Almeida Freitas e Xavier Dolan são "Matthias & Maxime" — Dolan também realiza

D.R.

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

O canadiano Xavier Dolan continua a desenvolver o seu cinema intimista e confessional: “Matthias & Maxime” esteve na competição de Cannes/2019, tendo agora chegado às salas portuguesas.

Não se pode dizer que o funcionamento do mercado cinematográfico se tenha normalizado. Mas é um facto que, nas salas escuras, como noutros domínios da actividade cultural, algumas rotinas estão a ser repostas. A começar pelo mais essencial: os filmes em estreia.

Depois dos meses de encerramento das salas por causa da pandemia, “Matthias & Maxime” é, precisamente, uma das primeiras estreias. Foi um dos títulos apresentados na competição do Festival de Cannes de 2019 e corresponde a mais um capítulo confessional da obra do canadiano Xavier Dolan.

Vale a pena lembrar que Dolan se impôs como “menino prodígio” da produção do Canadá, ele que se estreou como actor/argumentista/realizador em 2009, com “Como Matei a Minha Mãe”, contava 20 anos. Depois, filmes como “Laurence para Sempre” (2012) ou “Mamã” (2014) ajudaram a definir um universo em que o intimismo das relações amorosas e sexuais vai sempre a par de um elaborado trabalho de direcção de actores.

Em “Matthias & Maxime”, reencontramos essa verdade carnal das relações que Dolan encena com uma atenção ao mais pequeno detalhe afectivo, dir-se-ia como quem acompanha os seus actores num exercício que tem tanto de artifício teatral como de arriscado improviso. No elenco, além do próprio Dolan, está Gabriel d’Almeida Freitas, canadiano de ascendência portuguesa — eles são, respectivamente, Matthias e Maxime.

Creio que os títulos anteriores de Dolan são, de um modo geral, menos retóricos na abordagem dos sentimentos e, sobretudo, mais ricos na sua dramaturgia. Seja como for, “Matthias & Maxime” é mais um retrato íntimo de uma juventude à procura da sua identidade, retrato que Dolan assume como um exercício narrativo contaminado por elementos da sua própria biografia.