Cultura

Que cinema virtual?

"Da 5 Bloods - Irmãos de Armas": a nova realização de Spike Lee

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Em tempos de pandemia, o panorama cinematográfico está transfigurado. O certo é que, de uma maneira ou de outra, grandes acontecimentos não faltam, desde o novo filme de Spike Lee até ao DVD de “Apocalypse Now - Final Cut”

Convenhamos que o actual panorama cinematográfico desafia todas as ideias feitas sobre o que seja ver filmes, quer dizer, produzir, distribuir e exibir filmes. Eis alguns sinais paradoxais da actual conjuntura (vista a partir do mercado português):

— um dos grandes acontecimentos do momento é a retrospectiva de dez filmes de Luis Buñuel, isto é, algo que nos remete para uma memória já consolidada, ainda que um dos filmes exibidos (“O Anjo Exterminador”, 1962) fosse comercialmente inédito;

— entretanto, temos à disposição um admirável filme de cinema (passe a redundância) com assinatura de Spike Lee, “Da 5 Bloods - Irmãos de Armas”, mas não o podemos ver nas salas escuras, apenas numa plataforma de streaming (Netflix);

— entre as estreias nas salas, podemos descobrir Ema [trailer], brilhante realização de Pablo Larraín, o chileno de títulos tão especiais como “Tony Manero” (2008), “O Clube” (2015) ou “Jackie” (2016) — em qualquer caso, o seu lançamento foi programado, quase em simultâneo, para as salas e os circuitos online;

— enfim, apesar do cepticismo com que muitos encaram o futuro do DVD, é aí que encontramos algumas das mais fascinante novidades, incluindo a versão “final cut” da obra-prima de Francis Ford Coppola, “Apocalypse Now” (1979).

Dito de outro modo: não se pode dizer que a simples descrição do mercado implique o reconhecimento de uma fronteira, nítida e estanque, entre as formas tradicionais de difusão e o cinema virtual que passou a fazer parte dos nossos hábitos.

Daí o reconhecimento de uma questão tão delicada quanto essencial: o que está em jogo não será apenas o efeito global desse cinema virtual, é também, sobretudo, a redefinição dos próprios públicos. Nesta perspectiva, há todo um trabalho de reeducação dos espectadores que importa valorizar.

Reeducar, entenda-se, não significa “conduzir” o gosto seja de quem for. É, isso sim, dar a conhecer aos potenciais espectadores as virtudes e limites de todas as formas possíveis de ver um filme. Sublinho: todas as formas. Não escolher umas “contra” outras, mas valorizar as componentes específicas de cada uma delas. Quem pode fazer esse trabalho? Todos. Começando pela escola, desembocando nas próprias empresas apostadas em defender e valorizar os seus produtos comerciais.