Cultura

O Verão do nosso descontentamento

"Mulan": produção dos estúdios Disney foi adiada para 21 de Agosto

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

O Verão cinematográfico continua inevitavelmente marcado pela situação de pandemia: os adiamentos das grandes produções norte-americanas estão mesmo a condicionar todos os mercados internacionais

A reabertura das salas de cinema está a acontecer de forma irregular: por um lado, é verdade que alguns exibidores voltaram à actividade, aliás propondo filmes muito interessantes (lembremos o regresso de “Retrato de Rapariga em Chamas” ou o ciclo com dez títulos de Luis Buñuel); por outro lado, não é menos verdade que alguns dos grandes trunfos de Verão continuam por lançar.

O primeiro sinal veio do novo James Bond, 007: Sem Tempo para Morrer, transferido de Abril para Novembro. E como bem sabemos, com obras “melhores” ou “piores”, a dinâmica comercial do Verão depende, e muito, das produções norte-americanas. Este ano havia uma série de títulos aguardados com grande expectativa, com destaque para “Tenet”, a nova “viagem no tempo” assinada por Christopher Nolan, e “Mulan”, uma aposta dos estúdios Disney refazendo, agora com actores de carne e osso, um dos seus sucessos da área de animação.

“Havia” esses títulos… e continua a haver, mas com sucessivos adiamentos. Assim, a Warner Bros. voltou a remarcar o lançamento de “Tenet”: já tinha estado agendado para 17 de Julho, depois passou para 31 do mesmo mês, agora tem estreia prevista a 12 de Agosto [trailer]; entretanto, “Mulan”, previsto para 25 de Julho, foi mudado para 21 de Agosto.

São reflexos, antes do mais, do crescente número de infectados pelo COVID-19 nos EUA, em particular nas zonas de Nova Iorque e Los Angeles, obviamente determinantes na vida comercial de qualquer filme. E têm inevitáveis efeitos nos mercados internacionais porque, como é sabido, estes são títulos com lançamentos realmente globais (normalmente, ao longo de uma ou duas semanas).

Uma coisa é certa: o nosso contentamento de espectadores, tradicionalmente associado ao consumo dos filmes nas salas escuras, vai continuar condicionado pelas incontornáveis questões da saúde colectiva. Mesmo não menosprezando a pluralidade de oferta das plataformas de “streaming”, sentimos agora, mais do que nunca, que não é possível conceber o cinema — como indústria, cultura e comércio — sem os grandes ecrãs.