Cultura

Sessão de cinema: “Querido Diário”

Nanni Moretti em "Querido Diário": à descoberta dos recantos de Roma

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Para lá das estreias, há filmes que continuam a ser repostos nas salas. Agora, graças a uma iniciativa da Festa do Cinema Italiano, podemos redescobrir o cinema muito pessoal de Nanni Moretti

Na história do cinema italiano das últimas quatro décadas, Nanni Moretti emerge como um nome central. Vencedor da Palma de Ouro de Cannes, em 2001, com “O Quarto do Filho”, a sua obra tem sido um cruzamento exemplar de reflexão intimista e observação crítica da evolução social e política do seu país. Isto sem esquecer que ele é também produtor e proprietário de uma sala de Roma [Cinema Nuovo Sacher].

Agora, a organização da Festa do Cinema Italiano promove a reposição de dois filmes de Moretti: “Palombella Rossa” (1989) e “Querido Diário” (1993), este também distinguido em Cannes com o prémio de realização. As respectivas sessões estão a decorrer, para já, em Lisboa, Coimbra e Cascais.

Na evolução temática e estética de Moretti, “Querido Diário” ocupa um lugar central, já que introduz uma fundamental dimensão introspectiva. Assim, é um facto que nos seus filmes anteriores Moretti já tinha surgido como actor principal. Acontece que, desta vez, ele se apresenta na primeira pessoa, começando por fazer a “reportagem” realmente muito pessoal do Verão de 1993 vivido na cidade de Roma.

Deambulando pelas ruas na sua “vespa”, Moretti observa tudo, desde a beleza da luz nas fachadas dos prédios até ao comportamento nem sempre muito cordial dos cidadãos na rua. Tudo isto desembocando numa reflexão amarga e doce sobre a situação de doença que viveu recentemente.

Estamos, afinal, perante um exercício cinematográfico a meio caminho entre documentário e ficção. Os resultados são tanto mais envolventes quanto Moretti é também um talentoso construtor de narrativas: no limite, a gravidade do drama coexiste com a ligeireza da comédia.