Cultura

Sessão de cinema: “American Psycho”

"American Psycho": um dos mais complexos e desafiantes papéis de Christian Bale

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

“American Psycho”, de Bret Easton Ellis, é um dos mais controversos romances da literatura norte-americana das últimas três décadas — a respectiva versão cinematográfica tem assinatura de uma canadiana, Mary Harron, com Christian Bale no papel central

Recordemo-lo, sem qualquer ambiguidade: se há filmes que justificam que o aviso de “cenas eventualmente chocantes” acompanhe a sua difusão, “American Psycho” é, por certo, um desses filmes. Lançado no ano 2000, nele encontramos as marcas de uma violência física e emocional que não se confunde com nenhuma forma grosseira de espectáculo ou “voyeurismo”.

Disponível no mercado português em DVD (e também numa recente edição em Blu-ray), trata-se da adaptação do romance homónimo de Bret Easton Ellis, publicado em 1991, desde o primeiro momento envolvido em muita controvérsia (que, em boa verdade, pelo menos nos EUA, nunca se dissipou).

O retrato da personagem central, Patrick Bateman — um investidor de Wall Street no cenário do “boom” financeiro dos anos finais da década de 1980 — é, de uma só vez, uma narrativa trágica sobre a ganância e uma desencantada visão das formas de menosprezo pela vida humana que a ela podem estar associadas.

Realizado pela canadiana Mary Harron, um talento invulgar e pouco conhecido, “American Psycho” envolve também a metódica desmontagem de uma postura machista em que, de forma perversa, se cruzam o menosprezo pelo universo feminino e o endeusamento do dinheiro. Na representação da personagem de Bateman, encontramos o extraordinário Christian Bale, num papel de transição da sua carreira, já muito longe da sua condição infantil em “O Império do Sol” (1987), de Steven Spielberg, e alguns anos antes da trilogia de Batman (iniciada em 2005) que interpretou sob a direcção de Christopher Nolan.

Como curiosidade, recorde-se o interesse paralelo de Mary Harron por figuras do mundo das artes. Foi ela que dirigiu “I Shot Andy Warhol” (1996), sobre Valerie Solanas e a sua tentativa de assassinar Warhol em 1968; e há notícias do seu envolvimento num projecto biográfico sobre Salvador Dali, intitulado “Dali Land”.